Edison Luis Toni, CARTEIRO

“Meu trabalho, na minha vida, é tudo!”

PRUDENTE - MARCO VINICIUS ROPELLI

Data 01/08/2019
Horário 08:10
 Adriano Kirihara: Edison entrega correspondências em localidades distantes de Prudente
 Adriano Kirihara: Edison entrega correspondências em localidades distantes de Prudente

As melhores conversas, muitas vezes, surgem de personagens inusitados. O Imparcial bateu um papo descontraído com o carteiro motorizado Edison Luis Toni, 53 anos, um profissional apaixonado pelo que faz. Todos os dias, pela manhã, pega sua moto e leva para a população prudentina cartas boas e ruins, contas a pagar e palavras de amor de filho pra mãe, de namorado para namorada e tantas outras. Edison vai do centro à periferia. Vai perto, em condomínios da cidade, e vai bem longe, entrega correspondências até em chácaras às margens da Rodovia Ângelo Rena, na saída para Regente Feijó, entre elas o bairro Terras de Imoplan. O carteiro diz fazer amizades por onde passa e admite: prefere os lugares mais humildes, onde o calor humano é maior.

O Imparcial: Como e quando você se tornou carteiro?

Edison: Eu entrei nos Correios em abril de 87. Eu trabalhava em um mercado, antigamente. Comecei a trabalhar em 1983 no supermercado Pastorinho, quando eu ainda era menor de idade, pois foi o ano que meu pai faleceu vítima da doença de Chagas e eu como filho mais velho, somos em cinco irmãos, tive que trabalhar para ajudar minha mãe a criar meus irmãos. O caçula tinha oito meses quando meu pai faleceu, passamos por muitas dificuldades. A gente sempre procura melhorar e, graças a Deus, em 1987, passei no concurso dos Correios. Fiquei de 87 a 91 entregando correspondências a pé, foi quando passei a entregar de moto. Estou com moto até os dias de hoje.

Quais os desafios do dia a dia como carteiro?

Cachorro não adianta nem falar, né [risos]. O maior desafio mesmo é... Por exemplo, tem bairros que nós vamos entregar e não tem numero nas casas, tem casa que você vai e tem três números. Você pergunta para o cara e o cara não sabe nem o numero da casa dele. O sol, também, que é terrível.

Você trabalha em chácaras próximas à Rodovia Ângelo Rena, um local bastante distante. Como é isso?

No começo foi difícil. Eram muitos cachorros soltos, agora está tudo cercadinho. No momento, entrego no bairro Terras de Imoplan, mas seguimos o itinerário, independente do lugar. Entro nos Correios às 8h, vou para o setor de registrados, coloco as correspondências na ordem de entrega, pego as cartas que já havia colocado em ordem no dia anterior, saio para entrega por volta de 8h30. Entrego. Volto aos Correios por volta de 14h, já feito meu horário de almoço, aí eu acerto os registrados que foram entregues para poder dar baixa e começo a preparar as correspondências que serão entregues no próximo dia. Saio às 17h, quando não faço hora extra, o que geralmente faço três a quatro vezes por semana, devido à grande demanda de correspondência e Sedex. A rotina é essa aí.

Nesses bairros distantes você conhece novas pessoas, novos lugares da cidade, vale a pena, não vale?

É melhor ainda. Gosto de trabalhar com o pessoal mais humilde. Eu entrego em alguns condomínios, muita gente nem bom dia fala, não tem as criancinhas correndo na rua. Nesses condomínios é mais difícil ter contato com os proprietários. Nesses lugares, temos mais contato com os funcionários. Na periferia, acho mais legal, eu tenho mais contato com as pessoas, mais amizades.

Tem alguns bairros novos que eu fui o primeiro a entregar, Humberto Salvador, Brasil Novo, Ana Jacinta. Vimos os bairros se construírem. Se juntar vários carteiros por aí, dá para contar a história de Prudente. Essa é minha vida: conhecer gente e lugares.

Quais as histórias mais inusitadas desses seus anos como carteiro?

Um fato curioso ocorreu logo que entrei nos correios acho que foi em 1988, eu entregava cartas na Rua Nações Unidas, na Vila Industrial e tinha uma casa que tinha um cachorro pastor alemão muito bravo e naquele dia tinha uma correspondência nesta residência. Fui chegando de mansinho e notei que o portão estava aberto. Eu olhei e não vi o cachorro. Entrei bem de mansinho para não fazer barulho e quando fui sair, notei que o cachorro estava na rua vindo em minha direção e eu, mais que depressa, fechei o portão comigo dentro da casa e o cachorro na rua. Todos que passavam no local riam da situação até que a vizinha ligou para a moradora e ela veio me soltar e prender o cachorro [risos]. Quando contei para meus companheiros, eles riram muito.

Mais alguma história que se lembra?

Teve uma história, uma vez, que eu fiquei até meio triste pelas pessoas. Aconteceu um episódio em Prudente, que um rapaz matou um moto taxista. O rapaz que morreu, na época, eu entregava cartas na casa da mãe dele, na Vila Angélica. A mãe chorava, dizendo que o filho havia morrido, que haviam matado seu filho. Na outra semana, me mudaram de setor, fui para a Vila Aurélio. Aí, por coincidência ou destino, fui entregar cartas na casa de uma mulher que chorava também porque o filho dela estava preso, pois tinha matado o rapaz do moto taxi. Aí, eu falei, ‘olha, para a senhora ver como são as coisas, quando eu trabalhava no outro setor, a mãe do rapaz que o filho da senhora matou, ficava chorando, e a senhora chora aqui também’. Aí elas quiseram se conhecer, e eu mediei o encontro.

Qual você considera a melhor parte da sua profissão?

Eu acho que é o contato com o povo, porque a gente faz muita amizade. Ficamos geralmente um ou dois anos no setor, então a gente conhece todo mundo. Aí vai mudando, vamos trocando de setor, aí quando a gente retorna para um setor antigo, as pessoas até comemoram. Quando a gente troca de setor, é bom que conhecemos gente nova e fazemos mais amizades. As pessoas costumam brincar dizendo: ‘Só traz conta, não traz dinheiro’. Ou as vezes o carteiro não é ninguém, também. Você bate palma na casa, a criancinha olha pela janela e fala: ‘Mãe, não é ninguém não, é o carteiro.

Sendo carteiro, você se sente importante na vida das pessoas e da comunidade?

Olha, eu penso que o carteiro é a imagem dos Correios. Falou Correios, você lembra direto do carteiro. O povo confia no carteiro, porque, querendo ou não, todos os dias você está na casa da pessoa. Você faz amizade, a pessoa te chama pra tomar um cafezinho, te dá abrigo quando está chovendo. Esse uniforme abre portas, tem poder, passa credibilidade.

O trabalho como carteiro foi importante na estruturação de sua vida, de sua família?

Para mim foi e é de suma importância. Tudo que eu consegui é graças aos Correios. Hoje, meus filhos estão casados, bem empregados, trabalham em banco. Tem a vida própria deles. E tudo foi possível pelo meu trabalho e da minha esposa. É ela que controla tudo na minha casa, as finanças. Tudo no papel. A criação dos meus filhos também foi assim, trabalhando aqui, fazendo bico. Meus filhos lutavam caratê. Minha filha, inclusive, foi quatro vezes seguidas campeã brasileira. Faculdade, também, teve um ano que foi muito difícil, pagando duas mensalidades, tive que procurar uns bicos. Mas, graças a Deus, tinha o salário dos Correios.

Você acha que se os Correios param, as cidades param, também?

Sim. O pessoal falava: ‘Ah, quando vir o computador vai acabar as cartas’. Aumentou ainda mais. O que está acabando são aquelas cartinhas, eu escrevo pra você e você escreve pra mim, mas o volume de correspondência é imenso. De encomendas também.

O que os Correios significa para você?

Meu trabalho, em minha vida, é tudo! Tudo que eu tenho, eu devo aos Correios, minha família, tudo que conseguimos até hoje devemos ao meu trabalho como carteiro, aos meus colegas de profissão. Você pode preguntar para qualquer carteiro aí. Eles vão falar: “Os Correios fazem parte da nossa vida’.

 

 

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