"À meia luz"

DignaIdade

COLUNA - DignaIdade

Data 03/05/2022
Horário 07:00

Clássico norte-americano de 1944 que deu o Oscar de Melhor Atriz a Ingrid Bergman (num ano que era dada como certa a vitória de Barbara Stanwyck por sua femme fatale de “Pacto de Sangue” / “Double Indemnity”). No enredo, após a morte de sua famosa tia cantora de ópera, a jovem Paula (Bergman) vai estudar na Itália onde conhece o gentil e encantador Anthony (Charles Boyer) com quem se casa. Voltam a morar em uma antiga mansão vitoriana em Londres, aonde aos poucos, Paula vai se fragilizando progressivamente com o tratamento manipulador do marido, que questiona a todo o momento sua sanidade, fazendo com que ela mesma se indague sobre possíveis alucinações e delírios. No entanto, um policial da Scotland Yard (Joseph Cotten) passa a perceber o jogo e a desvendar os reais motivos do marido. Um dos grandes filmes da Hollywood clássica e que deu origem ao termo psicológico acima descrito em decorrência de seu título original: Gaslight. No Brasil em 1990, o autor Sílvio de Abreu colocou na trama da novela “Rainha da Sucata”, uma reprodução sobre o tema com os personagens Mariana (Renata Sorrah) e Renato (Daniel Filho). 
    
“Gaslighting e idosos”

O termo gaslighting ou gas-lighting se refere à manipulação, e é uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas ou ressaltadas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade. A origem se refere a um filme de George Cukor de 1944 (veja abaixo) estrelado por Ingrid Bergman e é uma violência psicológica sutil que causa instabilidade emocional e agravamento de emoções já fragilizadas. O manipulador distorce a realidade para se favorecer, se autovitimizar, manipulando a vítima, principalmente mulheres em decorrência do machismo e do patriarcado das sociedades. No gaslighting, um dos parceiros cria situações para que o outro sinta insegurança, medo ao extremo em prol do próprio benefício, e desta forma o outro tem dificuldade de romper o relacionamento abusivo. As mulheres abusadas são consideradas loucas, histéricas e exageradas, muitas vezes, simplesmente por questionarem as normas e padrões sociais impostos. O gaslighting pode ocorrer em outros relacionamentos sociais que envolvem poder, dentre eles, as relações dos idosos com seus filhos e netos, e muitas vezes, os sinais são suaves e pouco percebidos. O idoso passa a ter medo de decidir algo sozinho, com medo de repreensão do filho, passa a duvidar de si mesmo a todo instante e acredita que está sendo muito emotivo e se sente confuso sobre seus próprios pensamentos e sentimentos. Também começa a pedir desculpas frequentes e a omitir informações sobre o relacionamento para outros familiares e amigos. Passa a se sentir desanimado, pois a culpa dos conflitos é sempre dele (a), enquanto que o filho manipulador passa a demonstrar um comportamento sugestivo: nega informações, joga a culpa sempre na vítima, fala que o idoso tem um gênio difícil para os parentes e amigos, dita regras e restrições que diz ser para o próprio bem do idoso. Estes relacionamentos abusivos entre filhos autoritários e idosos frágeis são frequentes causadores de exaustão mental, ansiedade, depressão e agravamento de condições clínicas.

Dica da Semana

FILMES

"Um Limite Entre Nós":
(Fences). EUA. 2016. Direção: Denzel Washington. Com Denzel Washington e Viola Davis. Um jogador de beisebol aposentado, que sonhava ter sido uma estrela do esporte, vira catador de lixo e joga as suas frustrações na esposa, que tem que lidar com a dureza da vida cotidiana de segurar as pontas do lar e dos filhos. Um grande filme baseado em peça teatral que debate racismo, frustrações e opressão familiar. 
 

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