Advogada e jornalista da região luta pelos migrantes nos EUA

Tatiana Shirasaki, há 18 anos na América do Norte, tornou-se recentemente defensora pública do Estado de Wisconsin; ela relata como vivências da infância a fizeram ser quem é

Tatiana Shirasaki com a família que formou nos EUA: o marido, David Krahn, e os dois filhos,  Natália, de 13 anos, e Henry, de 11 anos
Tatiana Shirasaki com a família que formou nos EUA: o marido, David Krahn, e os dois filhos, Natália, de 13 anos, e Henry, de 11 anos

Na história de vida da advogada e jornalista Tatiana Shirasaki, 44 anos, as vivências do passado, parecem sempre fundamentais para o desenvolvimento de seu presente e futuro. Atualmente, ela, cuja família é de Álvares Machado, mora no Estado de Wisconsin, nos EUA (Estados Unidos da América), e, por lá, atua como defensora pública no condado de Fond du Lac, região rural e com grande presença de grupos imigrantes, principalmente hispânicos.

Este trabalho recente, com cerca de um mês, não é o primeiro que Tatiana desenvolve com comunidades de migrantes. Ela, enquanto residente de um condado também com forte presença de hispânicos, e sendo uma das poucas advogadas com domínio da língua espanhola, era sempre procurada para dar-lhes ajuda em problemas que podiam ter consequências migratórias, entre as quais, a extradição para o país de origem deles.

Neste contexto, Tatiana foi em busca dos advogados da Clínica de Migração do curso de Direito da Universidade de Wisconsin, que poderiam dar auxílio aos imigrantes que necessitavam de ajuda. "Achei, ali, que poderia ajudar as comunidades de migrantes", conta. Foi então que ela prestou o exame BAR (equivalente à prova da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] no Brasil) e foi contratada para trabalhar nesta Clínica da Universidade. Lá, dedicava-se a realizar parcerias na comunidade e ajudava os alunos em seus casos.

Da Clínica, já com mestrado e doutorado na Universidade de Wisconsin, sobre o tema da migração, foi trabalhar como diretora assistente de admissão do curso de Direito da Universidade. "Viajava o país [EUA] para buscar estudantes. Gostava de encontrar perfis de alunos para aumentar a diversidade em nossa classe de Direito: hispânicos, latinos, afro-americanos", relata. Já na internacionalização do mestrado da Universidade, com número dominante de alunos chineses, ela afirma ter continuado sua missão de diversificar. Viajou pela América Latina, veio até Presidente Prudente, na Toledo Prudente Centro Universitário, com esse trabalho.

"Um dia recebi um hispânico, às 6h30. Ele tinha contra si um mandado de prisão com consequências migratórias. Liguei para um juiz amigo e ele recomendou que eu procurasse um advogado para o imigrante, mas não achei um que dominasse o espanhol. Nesse dia pensei: 'Sou advogada, falo espanhol, posso ajudar!'”, conta Tatiana. Ela decidiu que queria servir à defensoria pública de Wisconsin para ser efetivamente útil ao auxílio dessas pessoas que buscavam respeito e qualidade de vida. A advogada se inteirou da burocracia, estudou, passou pelo processo seletivo e há poucas semanas está no cargo de defensora pública. "Estou feliz porque me sinto produtiva", ressalta a filha da região oeste de São Paulo.

Experiências que moldam o futuro

Há tanto na história de Tatiana, que este resumo de seu tempo recente não é capaz de contar metade de sua vocação humanitária. Este dom, inclusive, como já mencionado, encontra suas raízes em seu passado, enquanto ainda estava no Brasil. Mestiça, filha de Marli, brasileira, e Roberto “Dingo”, filho de japoneses, convivia com os avós nipônicos e muito aprendeu sobre a cultura japonesa. Quando se mudou para os EUA, diz que “aprendeu valorizar ainda mais o avô, a avó e o tio que vieram migrando do Japão” e se depararam, no Brasil, com uma cultura completamente diferente. Tatiana viveu situação parecida na América do Norte.

“Com 12 anos decidi que queria aprender inglês, mas nessa época nem imaginava que ia morar nos EUA. Em torno dos 15 anos escrevi, em inglês, um projeto para o Rotary Club, angariando verbas para a reforma do centro cirúrgico da Santa Casa de Machado. Foi o primeiro projeto que fiz”, conta.  Depois desse vieram outros, diretamente de terras norte-americanas, para a Santa Casa de sua cidade natal e até para a entidade Lúmen et Fides, de Prudente.

A verdade é que o instinto de defender minorias ou apontar problemas vem desde a infância em Álvares Machado, quando se empenhou em um Grêmio Estudantil para o colégio Angélica de Oliveira. Ela crê que eventos como esse definiram em sua mente a escolha do Direito.

Os caminhos do jornalismo a levou aos Estados Unidos

A defensora pública fala das brincadeiras que gostava em sua infância. Fazia jornais caseiros, entrevistas, reportagens... Essa vocação do passado fez dela jornalista, formada pela primeira turma de Jornalismo da Unoeste (Universidade do Oeste Paulista), ao lado de figuras como Homero Ferreira, Cintia Aquino, Rildo Herrera e outros. Passou por impresso, por telejornalismo e encontrou-se na fotografia. “Que desperdício uma fotógrafa tão boa virar advogada”, disse a ela, certo dia, em tom de brincadeira, o fotógrafo e professor Paulo Miguel. Mesmo com outra profissão, Tatiana jamais largou a fotografia.

Enquanto funcionária da filiada da Rede Globo em Prudente, Tatiana recebeu um conselho do jornalista Willian Waack quando teve oportunidade de conversar com ele: “Para avançar na carreira, vá morar por um tempo fora do país”, ele disse. Ela passou um tempo em Londres, quando Sandra Annenberg estava lá como correspondente, passou, também pela França Alemanha, sempre observando o trabalho de jornalistas e praticando o idioma.

Ao voltar para o Brasil a passagem de avião permitia uma parada nos EUA sem qualquer custo, e como sua irmã fora intercambista no país, ela tinha residência garantida com a família que a acolhera. Foi lá que ela conheceu o marido, David Krahn, em um contexto que ficou gravado na memória por ter sido próximo aos dias dos ataques terroristas às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001. A história do encontro tem suas nuances, mas importante é saber que se casaram, estão juntos há 18 anos e celebram como fruto do amor os filhos Natália, de 13 anos, e Henry, de 11 anos.

 

"Viajava o país [EUA] para buscar estudantes. Gostava de encontrar perfis de alunos para aumentar a diversidade em nossa classe de Direito: hispânicos, latinos, afro-americanos"

Tatiana Shirasaki

 

Há tanto na história de Tatiana, que este resumo de seu tempo recente não é capaz de contar metade de sua vocação humanitária

 

Fotos – Cedidas

 

Tatiana Shirasaki, que vive há quase 20 nos EUA, tornou-se há pouco defensora pública

 

Com os pais, em frente à Suprema Corte de Wisconsin, onde fez juramento como advogada

Avós paternos de Tatiana, os quais ela admira pela coragem que tiveram quando migraram do Japão

 

 

Como jornalista, Tatiana esteve na Globo Londres quando Sandra Annenberg era correspondente

 

Por conta da internacionalização do mestrado da Universidade, Tatiana esteve na Toledo Prudente Centro Universitário

 

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