Carlos Correia

António Montenegro Fiúza

«Enfim, depois de tanto erro passado 
Tantas retaliações, tanto perigo 
Eis que ressurge noutro o velho amigo 
Nunca perdido, sempre reencontrado. 

É bom sentá-lo novamente ao lado 
Com olhos que contêm o olhar antigo 
Sempre comigo um pouco atribulado 
E como sempre singular comigo. (…)»
Soneto do Amigo, Vinicius de Moraes – primeira parte

A vida é uma viagem de comboio, na qual pessoas entram e saem das nossas vidas, ocupam lugares importantes, viajam conosco por um longo período ou fazem aparições curtas, mais ou menos marcantes.
Num dos apeadeiros da vida, conheci Carlos Correia, um dos mais ilustres guineenses contemporâneos, a quem foi concedido pela Universidade Lusófona, o Diploma e a Medalha de Ouro de Reconhecimento e Mérito, antigo Primeiro Ministro da Guiné – Bissau, mas, e acima de tudo, um ser humano incomparável e amigo.
No quintal da sua casa de estilo colonial, nas tabancas, nas estradas empoeiradas, nos mangais e nas savanas, por todos os locais por onde passamos, ecoa a sua voz cálida e mansa, tranquila mas imponente. A voz de um amigo.
A sua vocação política fora movida pelo profundo amor ao povo guineense e por um senso pródigo de justiça; esteve presente no Massacre de Pidjiguiti, no qual se posicionou, fortemente, em defesa dos trabalhadores injustiçados e martirizados; como um ser ubíquo, lutou pela independência nacional em duas frentes: na luta armada e na alfabetização; usou da espada e da pena, para libertar a Guiné – Bissau e levá-la ao progresso e ao desenvolvimento.
Carlos Correia fora um soldado, um professor, um político, um verdadeiro amigo do seu povo.
Por estes dias, retorna ao pó um homem que muito fez pelo seu país, com dedicação, com a grandiosidade plena de quem o faz por amor e abnegação, um homem que abraçou o seu povo, levando as suas dores e os seus temores, cobrindo-o de esperança e de fé. É este Carlos Correia, a quem – em momento de muita dor – endereço a minha mais profunda gratidão, pelos momentos passados, pela aprendizagem feita, pela humanidade com que me presenteou. 

«(…)Um bicho igual a mim, simples e humano 
Sabendo se mover e comover 
E a disfarçar com o meu próprio engano. 

O amigo: um ser que a vida não explica 
Que só se vai ao ver outro nascer 
E o espelho de minha alma multiplica...»
Soneto do Amigo, Vinicius de Moraes – última parte
 

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