Chico Buarque

António Montenegro Fiúza

«(…)Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago (…)»
Chico Buarque, “Construção”, 1971

Por mais que nos debrucemos e discorramos sobre a educação, por mais que reconheçamos o seu papel primordial e imprescindível, por mais que a louvemos e a exaltemos... há coisas que a escola não faz.
No ensino formal, aprendemos sobre a semântica, a sintática e a pragmática; que são todas ramos da linguística, que a primeira estuda o significado das palavras e termos, que a segunda se debruça sobre a sua função na oração e que a terceira refere-se ao estudo da linguagem, no contexto do seu uso, na comunicação. Apendemos as regras pelas quais a comunicação se rege e se orienta. Mas não aprendemos a ser poetas.
Aprendemos o significado das palavras e onde devem ser elas colocadas, arrumadas e arranjadas, aprendemos quando e como usá-las, para sermos entendidos. Mas não aprendemos a desenhar sentimentos e a criar emoções e comoção em quem as escuta, mesmo que as ouçam quase 50 anos depois. Isso é apanágio de poucos!
Esse dom de criar ritmo e melodia, de criar ansiedade e dor, de transformar a palavra numa adaga e com ela tocar, levemente, as dores escondidas no coração do leitor e do ouvinte... esse dom pertence a poucos. E entre esses poucos, encontramos Chico Buarque – um dos mais sonantes nomes da música popular brasileira; conhecido mundialmente e condecorado em vários países. 
Músico, dramaturgo, poeta e ator, lançou dezenas de álbuns, escreveu livros e dramaturgias adaptadas para filme e teatro; eis o homem que se suplantou às regras linguísticas: que toca nas palavras e faz delas emoções, e com essas, cria música, consciência, introspeção e ação. Com as mesmas palavras, Chico Buarque faz poesia, faz música; brinca com elas como criança que joga à bola na praia, desenhando arcos marcantes e irrepetíveis.
Em “Construção”, Chico Buarque conduz-nos, do início do dia ao fim da vida de um homem simples e anónimo; conduz-nos vagarosamente até que deixe de ser anónimo, conduz-nos vigorosamente, até que a sua dor se torne a nossa dor. E faz o mesmo, em todas as suas obras, quer sejam líricas ou narrativas, traz-nos ao simples e quotidiano e sublima-o. 

«Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina»
Chico Buarque, “Construção”, 1971
 

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