Demétrius, ídolo da Jovem Guarda

Sandro Villar

O Espadachim, um cronista contra as rugas e as rusgas.

CRÔNICA - Sandro Villar

Data 23/08/2020
Horário 06:00

No RG e em outros documentos o nome completo dele era Demétrio Zahra Neto. Era carioca da gema e da clara. Ainda menino, quando tinha uns cinco anos, deixou Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, e veio com a família para São Paulo.
No começo dos anos sessenta do século passado, ele alterou levemente o nome de gladiador romano, de Demétrio para Demétrius, e decidiu ser cantor. O rock and roll estava na moda como está até hoje.
Com topete à la Elvis Presley e boa pinta, além de boa praça, Demétrius embarcou na canoa do rock e se deu bem. Tornou-se um ídolo da juventude e do movimento Jovem Guarda, capitaneado por Roberto Carlos. 
Como não poderia ser diferente nos agitados anos sessenta, um dos primeiros discos gravados por Demétrius foi um rock pra lá de "endiabrado": “Rock do Saci”, de autoria do compositor Baby Santiago. O compositor era fã do cantor Little Richard, uma lenda do rock e autor dos clássicos Tutti Frutti e Long Tall Sally.
Me lembro de uma conversa que tive com o Baby Santiago, quando ele admitiu que compôs o “Rock do Saci” inspirado em “Long Tall Sally”. Baby era um ótimo sujeito e entendia do riscado. Rock pauleira, sem som de maconha, era com ele mesmo.
Demétrius também gravou Ternura, uma balada estilo dor de cotovelo que acabou fazendo sucesso na voz de Wanderléa. Era a versão de uma música americana, como também era versão outro rock gravado por Demétrius, denominado “Corinna Corinna”. Fez sucesso. As rádios tocaram bastante “Corinna Corinna”.
As versões de rocks famosos, como “Oh Carol”, de Neil Sedaka, e “Diana”, de Paul Anka, caíram no gosto do público brasileiro. Carlos Gonzaga, um dos pioneiros do rock no Brasil, fez enorme sucesso com “Oh Carol” e “Diana”.   
A então rainha do rock no Brasil, Celly Campelo, também foi bem- sucedida com gravações de versões. E por falar nisso, para confirmar o predomínio das versões, o maior sucesso de Demétrius foi a versão de um rock melodioso e agradável lembrado até hoje.
Se alguém aí na plateia pensou no belo “O Ritmo da Chuva”, acertou na mosca e em outros insetos. Sucesso total e merecido. O original foi gravado pelo grupo The Cascades.
Uma música com letra divertida de Demétrius tornou-se um enorme sucesso na voz do humorista Ary Toledo, o maior piadista do Brasil, dono de um estoque de pelo menos 80 mil piadas. É a hilária “Linda Meu Bem”, que fala de uma mulher não muito jeitosa, porém, admirada e amada pelo namorado. Ou amante, sei lá.
Entre o fim dos anos 60 e meados da década de 70, o gajo aqui apresentava um programa na Rádio Piratininga, em São Paulo. Sempre que tinha um tempinho sobrando, Demétrius ia à radio a fim de caitituar o disco novo, recém lançado pela gravadora.
Como? Você não sabe o que é caitituar? Era uma gíria usada pelos divulgadores das gravadoras e que significa divulgar os novos discos de preferência com a participação dos cantores nos programas de rádio.
Uma vez fomos pescar em alto-mar e entre os participantes da pescaria estava Demétrius. A pescaria foi organizada pelo discotecário Samuel Hiller, da Rádio Gazeta, cuja discoteca era uma das melhores do Brasil. Fisgamos peixe espada e - pasmem! - até uma gaivota que "dançou" ao tentar "roubar" um peixe.
Nos últimos tempos, Demétrius morava em Iperó, perto de Sorocaba. Teve um drama pessoal difícil. Um filho dele morreu afogado. Presumo que enquanto esteve neste insensato mundo, Demétrius se portou com dignidade e combateu o bom combate.
Uma vez, já idoso, brincou ao lembrar a época em que as meninas queriam agarrá-lo nos shows. "Naqueles tempos elas jogavam calcinhas no palco. Hoje, jogam fraldas geriátricas". Valeu, Demétrius!

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