E os efeitos colaterais da vacina, hein?

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 12/01/2021
Horário 07:00

-- Tudo bem? Quanto tempo!
-- Sim, como você está? E as crianças? Tudo bem?
-- Claro, em paz.

Silêncio inquietante por alguns segundos, como é de praxe nestas conversas bestas que a gente tem quando encontra alguém que é só conhecido. E se antes o assunto girava em torno do tempo ou da última rodada do Brasileirão, o negócio agora é falar de pandemia e a frase mais repetida no universo conhecido:

-- Então, e quando será que isso vai acabar, né? Que coisa...
-- Pois é, ninguém aguenta mais, mas eu acho que só vamos ter sossego mesmo quando uma vacina aparecer e a imunização for ampla.

Pausa dramática! Esta última frase é minha e o rosto enrugado e desafiador que se mostrou à minha frente foi do conhecido.

-- Ah, mas vacina? Acredita nisso? Eu não vou tomar vacina alguma. 
-- Eu vou e todos lá em casa também. Não vejo razão para que não tenhamos proteção contra uma doença perigosa.
-- Mas essa vacina aí não é tudo isso não. Eu li na internet que ela vai mais matar do que salvar. E os efeitos colaterais, então? Gravíssimos, gente que vai ficar até cega.
-- Leu? Na internet aonde?
-- Na internet, ora. Eu tô um grupo que tem uns ‘pessoal’ (sic) estudado e gente que sabe do que está falando. Não essas bobagens que a gente vê por aí dos cientistas e na mídia. Esse povo é só enganação pra quebrar o país.

Sabe, a gente nunca acredita que existam pessoas assim até que se depara com um exemplar ao vivo e a cores. É assustador. Eu mesmo nunca tinha conversado com um negacionista e eu juro que poderia respeitar até a morte o direito de todos acreditarem ou não em algo, mas é de chorar quando o nível de argumentação fica no “Li nas internet ou no grupo de Zap-Zap”. A esse negacionista eu cuspo no chão e saio de perto. Porque ele deve ter dois parâmetros de convencimento que me irritam profundamente: ou acreditam nas misérias informativas que poluem as redes sociais ou seguem posicionamentos políticostiranos. Ou os dois juntos, o que é bem pior. 
Sim, internet e as redes sociais trouxeram à civilização humana muitas conquistas e uma delas, sem dúvida, foi poder se esquivar da tirania dos meios de comunicação de massa. 
Acontece que há limites para tudo, inclusive para sermos livres, espertos ou ignorantes.
Com informações ruins e falsas nas mãos, basta que os negacionistas ainda tenham algum líder pior que eles para que tudo fique ainda mais grave (e não é que têm?).
Percebeu que da noite para o dia apareceu muita gente entendedora de “eficácia” da vacina? E os “doutores” dos efeitos colaterais? Alertam para problemas terríveis que as vacinas causam: de hemorragia interna, passando pelo chip chinês, virar um jacaré como disse o Bozó e até infertilidade geral das gerações futuras. Rapaz! Já pensou? Castrados, mas imunizados! Ah, tenha santa paciência! 
Todo medicamento tem ou pode ter efeito colateral. Faz parte do processo. Mas sabe o que mais pode ter efeito colateral grave? Beber demais e ignorar a família e os filhos; agredir mulheres; ser racista e homofóbico; fumar; comer em excesso; encher a pança de doces, gorduras e hormônios; falar mal dos outros; ter inveja; não ter compaixão e empatia; enganar as pessoas; superfaturar em vendas; fraudar leis e impostos; ser hipócrita e escroto. 
Vai ver um monte de negacionistas faz isso com mais frequência do que toma vacina e nem sabe o risco que está correndo.
 

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