Embrapa: custos para produtor de leite aumentam 62% em 2 anos

O que gerou elevação de 43% no preço ao consumidor; especialistas explicam as razões, dentre elas, a entressafra, que acentuou a escassez do produto no mercado e a menor oferta nos laticínios

REGIÃO - DA REDAÇÃO

Data 02/08/2022
Horário 05:22
Foto: Divulgação/Embrapa Gado de Leite
Produtor não está conseguindo cobrir os custos e diminuiu a oferta, reduzindo alimentação das vacas
Produtor não está conseguindo cobrir os custos e diminuiu a oferta, reduzindo alimentação das vacas

Não é apenas a entressafra que explica a inflação dos lácteos no Brasil, que nos últimos anos, teve uma alta de 62% nos custos para o produtor, gerando uma elevação de 43% no preço ao consumidor. Apesar de o litro de leite UHT ter atingido o valor de até R$ 8 em alguns estabelecimentos, por causa da chegada do inverno e da redução das chuvas em boa parte das regiões produtoras, o produto já seguia em elevação nos últimos meses. Segundo Glauco Carvalho, pesquisador da Embrapa Gado de Leite, a principal causa do aumento é a menor oferta do produto nos laticínios, o que se deve principalmente à elevação dos custos de produção.
A entressafra tem início em abril, mas, segundo o pesquisador, “a oferta de leite já vinha fraca desde o ano passado e acentuou nos primeiros meses de 2022. Além disso, a entressafra acentuou a escassez de leite no mercado”, afirma Carvalho.
Conforme o pesquisador, o preço, mesmo em alta, não está sendo suficiente para cobrir os custos, o que piorou a rentabilidade nas fazendas e levou o produtor a diminuir a oferta, reduzindo a alimentação das vacas. Em pesquisa referente à compra de leite pelos laticínios no primeiro trimestre do ano, os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelaram uma queda de 10,51% em comparação aos três primeiros meses de 2021. Essa foi a quarta queda trimestral consecutiva e a maior em uma avaliação trimestral desde o início da pesquisa, em 1997. “O volume de leite adquirido no primeiro trimestre deste ano foi o equivalente ao observado em 2017, o que significa que a indústria regrediu cinco anos em termos de captação de leite”, explica Carvalho.
No segundo semestre, a perspectiva é de algum crescimento na oferta, motivada pelo início do período de chuvas e também por uma recuperação nas margens de lucro do produtor. “Os preços ao produtor estão em alta e isso vai dar um incentivo para melhorar a produção”, acredita Carvalho. No entanto, o pesquisador salienta que muitos produtores saíram da atividade e outros destinaram animais para o abate. “O impacto disso na recuperação da oferta é difícil quantificar”, conclui o pesquisador.

Reflexos da guerra

A escalada dos custos vem ocorrendo desde meados do ano passado, impactando a rentabilidade dos produtores. De janeiro a junho deste ano, o preço médio do leite pago ao produtor, deflacionado pelo custo de produção, recuou cerca de 3,8% comparado ao mesmo período de 2021. Do rol dos insumos que mais subiram de preço estão os fertilizantes e os combustíveis, afetados pela guerra Rússia-Ucrânia. Até o frete marítimo internacional, também em alta, entra nessa conta.
Mas o insumo que mais tem pesado no caixa do produtor é o volumoso, que registrou elevação de 51% na comparação de maio deste ano com o mesmo mês de 2021. “Produzir silagem e adubar pastagens está bem mais caro”, constata José Luiz Bellini Leite, analista da Embrapa. A ureia no mercado brasileiro passou de R$ 2,3 mil por tonelada, no início do ano passado, para cerca de R$ 6,3 mil em março de 2022. O cloreto de potássio foi de R$ 2 mil/t para R$ 6 mil/t. Esses insumos tiveram os preços afetados diretamente pelo conflito no leste da Europa, que tem a Rússia como a principal exportadora.

Produto sazonal

Contudo, a entressafra, como de costume, também carrega parte da culpa pela alta dos lácteos. O leite no Brasil é um produto sazonal, com períodos claros de safra e entressafra. A diminuição da oferta devido à sazonalidade explica o aumento do preço pago pelo consumidor em parte do outono/inverno. No lado contrário, ocorre regressão do preço com o crescimento da oferta no período de primavera/verão. Dados do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo)-15/IBGE, de novembro a janeiro de 2021, em plena safra, mostram que os produtos lácteos ao consumidor tiveram queda de preço, o que é normal. As coisas começam a sair da normalidade com a alta das commodities, revertendo a tendência de preços baixos a partir de fevereiro, em plena safra.
Segundo Paulo do Carmo Martins, pesquisador da Embrapa, a demanda por lácteos também costuma apresentar oscilações ao longo do ano, o que resulta em um setor com preços tradicionalmente voláteis. “Em alguns períodos, são os produtores que reclamam dos preços baixos pagos pelos laticínios; em outros, são os consumidores que ficam insatisfeitos com o valor que estão pagando pelos produtos lácteos”, diz. Para Martins, esse fato passa a impressão de que o leite é sempre um problema na cesta de alimentos.
Com a volta da inflação a dois dígitos, as atenções se voltam para os gêneros alimentícios, que têm maior impacto nas populações de baixa renda e o leite assume seu protagonismo.
(Com Embrapa)

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