Espectador

Sandro Villar

O Espadachim, um cronista a favor das abelhas e contra os abelhudos

CRÔNICA - Sandro Villar

Data 25/11/2020
Horário 05:30

E não é que surgiu no Brasil a figura sinistra do espectador de tragédias? Sei que vocês podem até pensar que este charmoso cronista comete mais um exagero, mas não é nada disso, minhas queridas e meus queridos.
Sim, respeitável público, o espectador de tragédias está por aí. São aquelas pessoas que não mexem uma palha para socorrer cidadãos em situação de perigo. Um dos casos mais emblemáticos acaba de acontecer em um supermercado do Carrefour, em Porto Alegre.
Dois trogloditas espancaram com extrema violência um homem negro, o João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos. João Alberto recebeu muitos socos, principalmente na cabeça, sem contar os pontapés, e morreu.
Um dos agressores, talvez para imitar a polícia americana, colocou a perna nas costas da vítima. Resultado: João Alberto morreu asfixiado. O massacre durou quase cinco minutos. Agora, falo do espectador de tragédias.
Ao todo, segundo o SBT, 12 pessoas presenciaram o espancamento. Eram, portanto, 12 testemunhas e convém esclarecer que a palavra testemunha também é sinônimo de espectador. Estavam impassíveis, pouco se lixando para o que acontecia. 
Ninguém prontificou-se a acudir João Alberto. Ninguém quis socorrê-lo e uma fiscal até tentou impedir a gravação. É outra sem-vergonha e canalha, a exemplo dos assassinos.
A morte do homem negro poderia ter sido evitada se pelo menos alguns dos espectadores tentassem interromper o espancamento. Covardia total, absurdo total. Antigamente havia aquela máxima de que o melhor do Brasil é o brasileiro. Será?
Me desculpem a franqueza, não acredito nessa bobagem. O brasileiro está embrutecido demais e isso também tem a ver com as trevas do nazismo nas quais o país mergulhou. Cadê aquele povo cordial? Isso é coisa do passado.
O caso João Alberto é apenas um dos incontáveis casos semelhantes registrados nos últimos tempos. O racismo só aumenta e não apenas contra negros. Nordestinos, pobres e judeus, para citar alguns exemplos, também são hostilizados pela elite branca, como diz o Cláudio Lembo.
Algumas canções detonam o racismo e uma das mais importantes é "Strange Fruit" (“Fruto Estranho”), gravada por Billie Holiday no fim dos anos 30. A letra é um poema do professor judeu Abel Meeropol, que dava aulas em um colégio do Bronx, em Nova York.
E o que é o fruto estranho do título? Eram os corpos de negros enforcados pela Ku Klux Klan pendurados em árvores. Afinal, muitas árvores dão frutos. Só que esses eram frutos estranhos, negros vítimas do racismo. 
A canção causou impacto e mal-estar nos EUA, ainda mais na pungente interpretação de Billie Holiday, considerada a maior cantora americana de todos os tempos. Com o tempo, porém, a opinião pública percebeu que "Strange Fruit" era um libelo contra o racismo. Bom lembrar: só existe uma raça, a raça humana.
 
DROPS BÍBLICOS

Depois que sua mulher virou estátua de sal, o Lot não precisou mais comprar esse tempero para cozinhar.

Depois de cortar o cabelo do Sansão, a Dalila vendeu a tesoura para um comerciante da Rua José Paulino.

O Jardim do Éden foi o primeiro condomínio fechado com apenas dois moradores - o casal Adão e Eva - e uma cobra de estimação.

Se fosse nosso contemporâneo, Pilatos, com essa história de lavar as mãos, ganharia a vida fazendo propaganda de sabonete e de álcool em gel.
 

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