Falar da vida em tempos difíceis

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 21/06/2020
Horário 04:55

A realidade
sempre é mais ou menos
do que nós queremos.
Só nós somos sempre
iguais a nós-próprios.
(Odes de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa)

Nestes tempos difíceis, escrever uma crônica semanal tem sido um grande desafio. O ponto de partida foi a homenagem que eu fiz para José Ilário Pasquini, que nos deixou há um mês depois de muito lutar contra um câncer. Esta semana eu perdi o meu pai pelas mesmas razões. A perda de entes queridos tensiona o espaço entre a caneta e o papel. A Covid-19 que nos diga. Tendo estas situações de dores e perdas, registro aqui o meu esforço pessoal de olhar para os mesmos fatos que macetam nosso cotidiano sobre outro prisma.       

O que é exatamente a realidade dos fatos? Nos dizeres do poeta, “é sempre mais ou menos do que nós queremos”. E a crônica que escrevo aqui, tendo como referente as vozes “iguais a nós-próprios”, é um esforço de adaptação individual às demandas do presente. É defrontar-me a cada instante com conflitos insuperáveis e demandas sociais imensas que batem constantemente à minha porta. Qual é, então, o sentido de escrever esta crônica para o jornal deste domingo? Para mim, é um ato de memoralizar. É Marilena Chauí que nos ensina que a memória é uma construção de cada um de nós, quando reviramos nossas gavetas de fatos do passado, reatualizando-os e recriando-os de acordo com o nosso universo de valores e sentimentos do momento. Assim, o ato de memoralizar é uma espécie de trabalho no qual entra em jogo o lugar que cada um ocupa, os laços de solidariedade e as forças de tensão que estabelecemos com as coisas e as pessoas ao nosso redor.

Tendo em vista estas considerações, falar da vida neste instante se transforma num exercício de autoconhecimento. E ao cumprir esta tarefa nesta semana difícil, eu creio que a principal reflexão não seja a respeito do que é simplesmente a vida, mas de quem somos nós, o que estamos fazendo aqui, qual é o nosso projeto. Pedro, Zete, Lydia, Tide, Vivi, Quinho, Noelle, Pedrinho - eles não deixam morrer a minha memória. Paula, Julia, Marina, Felipe, Lucas, Rafael e Isabella - me lembram que a vida é uma eterna novidade. Evelane, meu tudo. Enfim, o que importa é que, independente do que falamos e escrevemos, a vida continua ou pelo menos luta para continuar sendo vivida. Independente de pensarmos sobre as coisas, elas existem. Movimentando a minha memória acerca destes fatos recentes, concluo que a vida é dinâmica e aberta ao futuro.

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