Filhos do ontem, herdeiros do amanhã

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 03/01/2021
Horário 05:28

Tenho a nítida sensação de que, em algum momento do dia, 2020 será proclamado o ano que nunca acabou! Apesar da rapidez da eclosão da Covid-19 e das respostas para enfrentá-la com vacinas, o ano nem foi exatamente uma novidade. A mutação genética de vírus pela manipulação humana da natureza existe desde o dia em que os hominídeos descenderam das árvores e resolveram conquistar o mundo. Da mesma forma, há mais de 100 anos, a única medida de controle das epidemias sempre foi a exclusão dos doentes do convívio social. E os jornais da época até publicavam charges que ridicularizavam os efeitos imprevistos da nova descoberta: a vacina! 
Eu esperava que 2021 fosse diferente... mas não. Chegou com chuva forte, arrastando tudo o que encontra pela frente. Com fome e tristeza em muitos cantos. Intolerância e ignorância. Senhor ano de 2021, por favor, venha com calma! Não esqueça do trabalhador do campo, que tomba e ara a terra para produzir nossos alimentos. Escute o canto mais profundo dos povos das matas. Admire a resistência altiva dos quilombolas, originários dos mais diversos grupos, como os jejes, os iorubás, os mahis e os mandingas. 
Somos todos filhos do ontem. Da área cultural caipira variante da cultura brasileira rústica que se espalhou pelo interior de São Paulo, do Espírito Santo, de Minas Gerais, do Mato Grosso e do norte do Paraná. População rarefeita e dispersa que voltou-se para seu autossustento e organizou-se em pequenos núcleos familiares representados pelos bairros rurais remanescentes dos nossos municípios onde já se fez de tudo um pouco: chapéu de palha, gamela de raiz de figueira, cuia de beber, pote de barro, colher de pau, e muita devoção aos santos. 
Somos também herdeiros de um legado mais distante. Saudamos Antonie Donné que, em 1836, confirmou a presença de microorganismos na secreção de algumas doenças venéreas. Saudamos Félix Pouchet que, em 1849, identificou a presença dos vibriões coléricos (corpúsculos vibratórios) nas fezes dos doentes de cólera. Saudamos Koch que, em 1882, descobriu o bacilo da tuberculose. Saudamos Martinus Willen Beijerinck que, em 1898, comprovou a existência de um agente menor que as bactérias - o vírus. Grande descoberta que permitiu a identificação de vários tipos de vírus associados à gripe, à catapora, à cachumba e à poliomielite! 
Que os filhos do ontem mantenham os laços mais solidários entre os vizinhos herdados dos bairros rurais caipiras nos transformando, pelas redes de auxílio mútuo e convívio comunitário, nos herdeiros do amanhã. 
 

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