Goa

António Montenegro Fiúza

«(…)Os deões que dá Pomona ali Natura
Produz, diferentes nos sabores,
Sem ter necessidade de cultura,
Que sem ela se dão muito melhores:
As cerejas, purpúreas na pintura,
As amoras, que o nome têm de amores,
O pomo que da pátria Pérsia veio,
Melhor tornado no terreno alheio;)(…)»
Os Lusíadas, canto IX, Luís Vaz de Camões

O fascínio do Oriente, em toda a sua extensão: a maravilhosa arquitetura, numa cultura sui gereris que abraça o universo, a natureza e a espiritualidade pessoal, numa multitude de cores e emoções é reinventada quando ao chegar à Índia, se ouve falar a língua portuguesa e se passeia por igrejas e conventos tão familiares e, simultaneamente, tão díspares de tudo quanto se tenha visto e vivido.
No sudoeste indiano, situa-se ainda um pequeno Estado, no qual a língua portuguesa reinou, por mais de 400 anos e deixa ainda vivas memórias e doutos falantes: chama-se Goa e a sua história está intrinsecamente ligada à de Portugal, com contributos inesperados de parte a parte e histórias de sonho, poesia e ciência.
Em 1553, embarcava o poeta épico Luís Vaz de Camões numa longa viagem, que o levaria de Lisboa a Goa. Não queiramos entender as razões que o fizeram partir, não cabe a nós o relato histórico da questão, pois nos embrenharíamos em tamanha discussão, quanto aos “porquês” e aos “para quês”, que de pouco mais poderíamos falar. 
Dizíamos nós que saíra de Lisboa para Goa, e embora seus nomes produzam a rima doce e diatónica, as suas realidades não poderiam ser mais distintas e contrastantes. Da calma e plácida capital lusitana, cheia de requintes e cortesias eis o nobre fidalgo chegado às Índias, à pequena cidade de Goa.
Pequena em dimensões, mas com uma vida cosmopolita, agitada e apressada, graças a um porto que ligava a Ásia à África, ao mundo árabe e ao europeu. Dona de praias de areia fina e branca, estendendo-se por um litoral com vários quilômetros, este Estado fecundo e próspero teria maravilhado o poeta, pelas suas árvores frondosas e frutíferas, pelos seus outeiros verdejantes e pelas suas gentes, tão belas e sublimes quanto deuses.

«Abre a romã, mostrando a rubicunda
Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes,
Entre os braços do ulmeiro está a jocunda
Vide, cuns cachos roxos e outros verdes;
E vós, se na vossa árvore fecunda,
Peras piramidais, viver quiserdes,
Entregai-vos ao dano que cos bicos
Em vós fazem os pássaros inícios.»
Os Lusíadas, canto IX, Luís Vaz de Camões
 

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