Ilha de São Jorge

António Montenegro Fiúza

«Ainda sinto os pés no terreiro,
Que os meus avós bailavam o pezinho
É que nas veias corre-me basalto negro
E na lembrança vulcões e terremotos.

Por isso é que sou das ilhas de bruma,
Onde as gaivotas vão beijar a terra (…)»
Manuel Medeiros Ferreira, poeta açoriano

O grande poeta Vítor Nemésio chamou de “enorme dragão marinho” à ilha açoriana que, coincidentemente, recebe o nome de São Jorge – santo padroeiro de uma mão cheia de países e povos, protetor dos guerreiros, militares, construtores e criadores de ferramentas, montado no seu cavalo branco, ataca e derrota, impiedosamente, o grande dragão que ruge e que ameaça a vida das pobres e indefesas aldeias e suas pobres vulneráveis donzelas.
Para quem a vê ao longe, com uma extensa cordilheira vulcânica central e a sua costa escarpada e recortada, com as suas falésias, arribas e fajãs,  a Ilha de São Jorge parece mesmo um grande monstro, adormecido pelo embalar tranquilo do Atlântico, mas que a qualquer momento pode despertar e provocar a dor e a destruição. E fê-lo, em certa medida: há poucas semanas, sentiram-se espasmos do mostrengo, estrebuchou e resmungou, portentoso e assustador.

Se no falar trago a dolência das ondas
O olhar é a doçura das lagoas
É que trago a ternura das hortênsias
E no coração a ardência das caldeiras.

Por isso é que sou das ilhas de bruma,
Onde as gaivotas vão beijar a terra

Ilha de saborosos queijos curados de vaca, de lagoas cristalinas e piscinas naturais, ameijoas deliciosas, uma das ilhas mais verdejantes do Arquipélago dos Açores; terra de casas de pedra com janelas de três guilhotinas, tradicionais e únicas; terra do caloroso mas protetor Portão do Mar, construído no século XVII e que saúda quem chega pelo porto e quem sente, de imediato a calorosa hospitalidade. 

Trago o roxo a saudade esta amargura
E só o vento me ecoa na lonjura
Mas trago o mar imenso no meu peito
E tanto verde a indicar-me a esperança. 

Por isso é que eu sou das ilhas de bruma,
Onde as gaivotas vão beijar a terra

Marcam a paisagem, ainda, a matriz Igreja de São Jorge – onde se clama a presença e a proteção desse corajoso e destemido santo e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, bem como o Forte homónimo, formando uma tríplice de segurança e de abrigo.

É que nas veias corre-me basalto negro
No coração a ardência das caldeiras.
O mar imenso me enche a alma,
E tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança. 

Por isso é que sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra.

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