JOSÉ DE MELLO BRITO: DESCOBRIDOR DE TALENTOS

Telegrafista, publicitário, radialista, jornalista, músico, cantor e um dos principais profissionais de comunicação da história de Prudente

PRUDENTE - HOMERO FERREIRA

Data 01/03/2020
Horário 08:04
Cedida - José de Mello Brito: voz linda, seriedade, competência e responsabilidade
Cedida - José de Mello Brito: voz linda, seriedade, competência e responsabilidade

Mineiro filho de baiano, tendo como características predominantes a cautela e calma, a escolha do personagem desta reportagem de O Imparcial decorre de critérios convencionais, dentre os quais está o de sua história servir para inspirar outras pessoas. Porém, dessa vez tem uma medida a mais: a gratidão do autor da matéria e a do diretor do jornal, Sinomar Calmona, em nome de tantos outros colegas radialistas e jornalistas, especialmente os que receberam de José de Mello Brito a oportunidade de começar a  carreira profissional.

Mais que abrir caminhos, tem sido professor. É daqueles que ensina até em silêncio, com a postura de quem é admirado e respeitado, que nunca foi processado, jamais precisou fazer retratação alguma, de maneira nenhuma foi ofendido e de modo algum foi ameaçado em 40 anos de exercício profissional nas rádios Venceslau, Difusora, Comercial, Piratininga e Cidade. Produziu e apresentou os mais diferentes gêneros de programas, chefiou a equipe de jornalismo esportivo que até hoje está na lembrança de milhares de desportistas: a Boa de Bola.

A publicidade é outro campo pelo qual atuou com facilidade durante as quatro décadas de bons serviços prestados à comunicação. A condição de músico e cantor, associada ao gosto e hábito de leitura, era o alimento para criação e produção anúncios. Fazia e vendia bem. Sua relação com os anunciantes se sustentava no retorno que proporcionava e na credibilidade, a mesma que tinha em seus programas junto aos ouvintes. E não só no rádio, pois teve atuação na área de vendas de anúncios publicitários neste jornal.

MINEIRO DO MÉDIO

SÃO FRANCISCO

Brito nasceu em Januária, no norte de Minas Gerais e às margens do Rio São Francisco. Filho do músico profissional Arlindo de Mello Brito e Maria de Lima Brito. Ainda nas terras mineiras, morou em Pirapora e Nova Lima, antes de realizar o sonho de seu pai, a exemplo de muitos nordestinos, que era vir para São Paulo. A primeira cidade foi Piquerobi, onde um tio tinha marcenaria e recebeu os familiares para trabalhar nesse ramo. Depois, Presidente Venceslau, onde teve o primeiro contato com o rádio, de onde foi transferido para Presidente Prudente, como telegrafista dos Correios.

Alfabetizado aos cinco anos de idade, desenvolveu excelente comunicação. A música já fazia parte de sua vida na gestão, com o pai saxofonista e maestro envolvendo os filhos nessa paixão. Foram sete: quatro mulheres e três homens. Além de tudo, Brito sempre teve o privilégio da voz linda. Assim, em 1957, aos 21 anos, fez locução de campanha política divulgada em alto-falante de caminhão que circulava por Venceslau. No mesmo ano foi trabalhar na ZYH-7, convidado pelo conterrâneo de seu pai, o jornalista Altino Correia.

Foram 10 anos na Rádio Presidente Venceslau, juntamente ao seu principal serviço, o de telegrafista. Casou-se aos 25 anos, no dia 1º de setembro de 1962, com Dinah Moreira, que acresceu o Brito ao seu nome. Tiveram quatro filhos: Renato, Elisa, Rogério e Fernando. Ficou viúvo em 30 de dezembro de 2005. Foram mais de 42 anos de feliz convivência de uma família que resultou em oito netos e cinco bisnetos, tidos por Brito como a condição de se considerar um homem rico. Há uma relação afetuosa de todas as partes.

Brito nunca misturou assuntos de trabalho com os de família, a exceção dos meninos que iam com ele na rádio ou no campo do Corintinha. Filhos e netos falam com paixão do pai e avô. Contam que os bisnetos também são apaixonados. Na educação dos filhos, foi mais de conversar do que dar broncas. Quando era para tomar alguma decisão, a palavra final era da mãe. Os momentos família foram e são intensos, sendo que uma das lembranças dos filhos foi o dia em que para mantê-los dentro de casa, por causa da chuva, resolveu ensiná-los a compor samba de breque.

Outras recordações são as de que nunca viram o pai, hoje com 83 anos, comer arroz e feijão, só a mistura: carnes vermelhas e brancas. Nem jantar, só lambiscar. Não tomar água, só cerveja. Dormir à tarde e ficar acordado boa parte da noite, geralmente conversando com a esposa dentro de casa ou no quintal, tocando violão, cantando e bebendo cerveja. Nos bares, primeiro o traçado, uma mistura de bebidas quentes. Nas serestas, o horário regrado. Nas pistas de dança, exímio dançarino. Em casa, nem rádio, nem televisão e nem internet; mas sim a leitura e a música do aparelho de som. 

Nas fotos em família aparece ao lado da esposa e das crianças, deitado no chão e o cachorro por cima dele, cantando, discursando nos aniversários, com seus irmãos, em roda de amigos, cantando e tocando violão, com as crianças no colo, incluindo netos e bisnetos. Quando a filha se casou, passou o dia limpando a Variant vermelha para levá-la à igreja. Tudo isso são parte das recordações de um pai, avô e bisavô amado. O que é bem parecido na relação de profissionais da comunicação para com ele, pelos quais é venerado.

VOZ QUE FAZIA

ECO NO ESTÁDIO

Na linha do gaúcho Heron Domingues (1924-1974), o Repórter Esso, ou de Luiz Jatobá (1915-1982), médico, locutor e jornalista; como noticiarista Brito poderia dar uma mentira que, certamente, seria recebida como verdade. No jornalismo esportivo, sua voz fazia eco no então Estádio de Parque São Jorge, onde hoje fica o Parque Shopping Prudente. Sua preferência era fazer as aberturas das jornadas esportivas, a começar assim: “Alô, alô torcedor do futebol três vezes campeão do mundo, passamos a falar dos altos da Rua Siqueira Campos”...

Na hora do almoço, era grande a audiência do programa O Mundo é Bola e no final da tarde ocorria o mesmo com Piratininga no Esporte. As edições diárias reservavam meia hora para o esporte paulista e nacional, sendo a outra meia hora para o futebol amador e outras modalidades, com destaque para atuação de Sérgio Jorge (1951-2018) que, com grande popularidade, se elegeu duas vezes vereador. Luís Semansati é da mesma safra e segue prestigiadíssimo, na Rádio Prudente. Laerte Silva também foi “bom de bola” e na Rádio Comercial faz polícia de segunda a sábado e aos domingos o Sertanejão. Mesma emissora de Wilson de Souza, o comunicador da noite, que começou na Boa de Bola.

Teve ainda os companheiros de fama nacional e com incursões internacionais, tais como Jurandir Gomes (1943-2014), que trabalhou em grandes emissoras de capitais como São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul; Lombardi Junior (1950-1994), com quem Brito começou a fazer o jornalismo esportivo na Rádio Comercial e o qual atuou em São Paulo e se consagrou pela Clube B-2, a Rádio gol do Brasil, na qual cobriu campeonatos estaduais e brasileiros, além de competições no exterior, incluindo Copas do Mundo. 

Dentre as revelações de José de Mello Brito, Eli Franqui (1958-2016) seguiu o caminho da televisão, com maior tempo de atuação em afiliadas da Globo no interior Paulista. João Antonio da Silva Barbosa faz brilhante carreira acadêmica. O entregador de telegramas que Brito levou dos Correios para o rádio, onde fez programas de entretenimento e militou no jornalismo esportivo, inclusive como ex-jogador de futebol do Corintinha, então conhecido como Chocô. Formou-se em educação física e foi para Ponta Porã (MS) como professor. Chocô é o pai do cantor Thiaguinho. Ao autor desta reportagem e ao Calmona somam-se vários outros profissionais criados por Brito.

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