Naquele tempo em que a bola era tratada como se fosse uma grande amante, ela nos dava alegria em cada chute, em cada passe e o mundo tinha outro nome: campo de futebol. E nosso rei, nosso capitão, nosso amigo, era Juarez. Mas pra gente, ele era apenas Lê o Garrote. Um apelido que soava como um trovão, mas era puro carinho.
Ele era o coração daquele time. Com a pele mulata e o sorriso largo, era a força que a gente precisava. Filho de uma família simples onde foi criado por uma mulher pequena no tamanho, mas gigante de espírito e de coragem. Todos os sábados no Estádio Paulo Constantino, o Prudentão, o Time dos Sonhos entrava em campo. A gente se encontrava no gramado, o nosso refúgio, o prazer no seu estado mais puro. Ali, não havia fome nem conta pra pagar, não tinha luta de classes, preconceitos, rico ou pobre. Só o ar quente, o suor, a luta, os gritos de "pega o cara", e a promessa de uma glória simples, a de um gol. Garrote liderava a gente, e a gente o seguia. Ele era a coragem nos olhos de um time que tinha sonhos e talento. Ele era a prova de que a vida, mesmo dura, tinha momentos de pura beleza.
Fora do campo, a alma dele era outra. Um cara que gostava de um bom papo, um amigo fiel. Ele amava literatura e falava com um brilho nos olhos de um livro especial: "As Vinhas da Ira", de John Steinbeck. Um livro que fala de esperança, de luta, de gente que perde tudo, mas não o espírito. Era ele, Lê o Garrote. Um guerreiro que entendia que a vida era uma batalha, mas que a gente precisava de força para continuar.
Mas a vida, às vezes, é um juiz que marca falta sem a gente ver. E o Garrote, depois de perder seu casamento, se perdeu. As "vinhas da ira" de sua própria vida começaram a dar seus frutos amargos. Ele se afogou na solidão, em um copo que parecia prometer paz, mas que o afastava de tudo o que ele amava. A vida dele, tão cheia de força e beleza, foi ceifada cedo demais, como uma flor que se fecha antes do tempo.
Na despedida, com o coração partido, eu me lembrei de um samba que ele mais gostava. “Lendas e Mistérios da Amazônia”, samba-enredo da Portela de 1970. Composição de Catoni, Jabolô e Valdenir. Os versos poéticos vieram em minha mente e cantei esses versos abraçado com seu filho Vitor: "A lua apaixonada chorou tanto/ e do seu pranto nasceu o rio e o mar... As palavras do livro de John Steinbeck, que falam de dor e luta, mas também de uma esperança que não morre permanecem na eternidade:
"Os meus olhos viram a glória da vinda do Senhor... E as uvas foram pisadas fora da cidade, e saiu sangue do lagar... e nos olhos dos famintos há uma ira crescente. Nas almas das pessoas, as vinhas da ira estão engrossando e ficando mais pesadas, ficando mais pesadas para a vindima...".
E é assim que eu me lembro dele. Não como um homem que se entristeceu, mas como um capitão do Time dos Sonhos. Como o garoto que corria no campo de terra, com os olhos cheios de esperança, em um mundo que era só dele. Que ele tenha encontrado a paz, em campos mais verdes, onde as vinhas não dão mais ira, mas apenas a doçura de uma vida bem vivida.
