Leve-leve

António Montenegro Fiúza

«Leve-Leve
Não é sabotagem, nem malandragem
Leve-leve
Não é máxima velocidade, sem fazer travagem
Leve-leve
É guiar com acerto sem desacerto»
Kalú Mendes, música, letra Alda Espírito Santo

Enfrentamos dias babelescos, épocas estranhas e difíceis; alguns diriam tempos catastróficos, outros, vendo o copo meio cheio, evocariam a possibilidade de mudança e transformação. A verdade é que o ser humano, habituado às padronizações científicas, às respostas certas e irrefutáveis, numa realidade que pouco propicia a tal, sente-se perdido e sem norte.
Uma doença que se propaga de forma desconcertante, vidas humanas perdidas, instabilidade econômica, indefinições a nível da liderança, toda esta realidade faz crescer o medo, a incerteza e o descontrolo. E isso não é desfavor de alguns poucos, mas uma realidade que varre o mundo inteiro, sem distinções notórias ou que possam transmitir o mínimo de segurança.
E é neste contexto, que de São Tomé e Príncipe, nos chega a expressão “leve-leve”, que caracteriza um modo de ser e de estar na vida, uma vivência desprendida e simples. Não nega as atrocidades, antes, faz dela um mote e um trampolim para maiores voos. Esta é a expressão que define todo um país, um modo de encarar a vida e os seus muitos desafios.
Foi preciso que alguém explicasse melhor esta expressão, e Alda Espírito Santo – poetisa santomense o fez, de forme sublime, cantado na voz de Kalú Mendes e embalado na suave melodia de um semba angolano.
Leve-leve é uma expressão de resiliência, de quem não se deixa abater pelas agruras e pelas vicissitudes, de quem levanta o rosto para o céu, confia nas suas divindades e não se faz rogado, quando desafiado.
Não implica uma postura de negação e de descaso, não implica preguiça ou displicência; antes, encarando a realidade tal como ela é, coloca as mãos à obra, sem se perder, nos desatinos da vida. Sem pressas, consciente das suas limitações, avançar rumo à solução!
Dizia o sábio que o problema não é o problema, mas a forma como encaramos o problema; e isso traduz o leve-leve: não nos deixemos absorver pelo medo, pelo pânico, pela impotência (muitas vezes percebida, mas poucas vezes real).
Quando desafiados pelo desconhecido e assolados pelo medo, mantenhamo-nos leve-leve; quando tudo parece ruir à nossa volta, de forma inexplicável e imprevista; quando parece que não há solução... não nos percamos, tentando ganhar o mundo.
Mantenhamos uma postura leve-leve, de corpo e alma, de espírito aguçado e predispostos a ajudar, de ânimo comprometido mas com a leveza do espírito. Neste momento, face às adversidades, sejamos leve-leve.
 

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