Malangatana

António Montenegro Fiúza

«Sim
às marrabentas
às danças rituais
que nas madrugadas
criam o frenesi
quando os tambores e as flautas entram a fanfarrar

fanfarrando até o vermelho da madrugada fazer o solo sangrar
em contraste com o verdurar das canções dos pássaros
sobre o já verduzido manto das mangueiras
dos cajueiros prenhes
para em dezembro seus rebentos
dançarem como mulheres sensualíssimas
em cada ramo do cajual da minha terra (…)»
Pensar Alto, Malangatana, extrato inicial

Cantar a africanidade e a identidade cultural de Moçambique; esculpir em traços generosos, a beleza e a robustez das suas mulheres, no seu afã diária ou nos momentos de calmaria e tranquilidade; pintar, com tons quentes, provocativos e afincados, os poemas de outros grandes nomes; enfim, expressar-se, manifestar o seu povo e as suas raízes, uma identidade antiga, mas simultaneamente, nova e renovada… não sei se o proclamou, em alto e em bom som, como missão de vida, mas foi essa a jornada que Malangatana percorreu, o caminho que trilhou, o percurso que desbravou para que outros, depois dele, o pudessem, também, andar e voar.
Malangatana Valente Ngwenya nasceu em Matalana – Moçambique, no ano bissexto de 1936; dono de uma capacidade inata para as artes, nas suas diferentes formas de expressão: desde a dança, música, poesia, teatro, tapeçaria, cerâmica e escultura. Artista completo e multitalentoso, para além das obras primorosas, das mãos dele, também surgiram os Centros Culturais e o Museu Nacional de Arte em Maputo e o Movimento Moçambicano para a Paz e o seu legado preserva-se através da Fundação Malangatana. 
Falecido há dez anos, Malangatana recebeu a distinção de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, galardoado pela Unesco, recebeu a Medalha Nachingwea e, até hoje, é relembrado pelo trabalho feito, pela paz e pela nação moçambicana.

«(…) mas sim
ao som estridente do kulunguana
das donzelas no zig-zague dos ritos
quando as gazelas tão belas
não suportam mais quarenta graus à sombra dos canhueiros em flor

enquanto as oleiras da aldeia, desta grande aldeia Moçambique
amassam o barro dos rios
para o pote feito ser o depositário
de todo o íntimo desse povo que se não cala disputando
ecoosamente com os tambores do meu ontem antigo.»
Pensar Alto, Malangatana, extrato final
 

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