Mário Lúcio

António Montenegro Fiúza

«A música leva os cabo-verdianos às suas origens.»
Mário Lúcio

«Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.
(…)
Havia somente
as aves de rapina
de garras afiadas
as aves marítimas
de voo largo
as aves canoras.
assobiando inéditas melodias.» Jorge Barbosa, Prelúdio

O arquipélago deserto, habitado apenas por aves endêmicas e salpicado por vegetação rasteira, fora descoberto em 1460 e dada à sua posição geográfica estratégica, fora habitado por uma multiplicidade de etnias africanas e europeias, as quais matrimoniaram as suas raízes, os seus sonhos, as suas esperanças. Sincréticos por natureza, múltiplos por origem, ei-los surgidos, de uma miscigenação profunda e irrepetível, a qual desconhece raças e, estranhamente, outras origens: os cabo-verdianos...
Mário Lúcio – escritor, músico e ex-ministro da Cultura de Cabo Verde – numa profunda tentativa de concetualização, apresenta a música como definidor identitário deste povo, ancorado no meio do Oceano Atlântico. Ele quem é, apenas, o principal embaixador do país e uma das suas figuras incontornáveis e insuperáveis da cultura cabo-verdiana, o mais jovem artista a ser galardoado com a Ordem do Vulcão, vencedor do Prêmio Literário Carlos de Oliveira e do Miguel Torga; e personalidade do ano da Womex (World Music Expo).
No funaná festivo ou no choroso, no batuque repicando as ancas, no trinado melódico e melancólico da morna, na sensualidade da coladeira, numa mazurca bem dançada ou nos tambores rufando, chamando e evocando... encontra-se o cabo-verdiano, na sua mais profunda essência. 
Profundo conhecedor da arte e das manifestações culturais desta nação que teima em sobreviver e viver, num clima de intempéries e numa terra fustigada pelo estio; deste povo que não desiste e que chora as suas dores numa canção doce e ri, debochado, das suas próprias maldições; Mário Lúcio não busca conhecimentos antropológicos e sociais, não se deixa invadir por cogitações etéreas e, de certo modo, improváveis. 
Este povo define-se pela música, onde se banha e mergulha, em todos os momentos da sua vida: nasce em ambiente de celebração, festa rija para afugentar as bruxas que podem desejar o pequeno ser... quando morre, é acompanhado, até à sua última morada, por tocadores e cantores, que lhe contam a vida e endereçam o último adeus.
Como definir este povo, que etnias ou raças poder-lhe-iam ser comparadas, quando o entrelaçar de muitos povos e muitas línguas, lhe fazem ser único. A música, apenas a sua música, cálida e temperada será a sua definição. 
 

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