Melancolia

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 02/08/2020
Horário 04:46

Nunca imaginei que a minha vida ganharia uma rotina semanal marcada pela redação de uma crônica para o jornal de domingo. Esse exercício tem provocado o meu olhar para as situações mais banais. Encontro-me diante do computador. Já passa da “hora grande” e o vento sopra insistentemente lá fora, esbofeteia os telhados, espanta os gatos. Subitamente, os objetos ao meu redor se tornam opacos, sinistros. A janela à minha frente treme de frio, bate os dentes. A lua crescente ilumina timidamente os bancos da “Praça de disseminadores de Covid-19” e guarda somente para si as estrelas. A cidade é um silêncio ensurdecedor, quebrado só de quando em muito por grilos. Dizem os moradores que, nesse tipo de noite, eles costumam ter pesadelos. Meus pensamentos voam para bem longe. Encontro-me agora nas reminiscências da minha rua da infância. 
Dizem que de poeta e louco cada um tem um pouco, mas naquela época era comum toda comunidade conviver com um doido. Sim, os doidos andavam à solta e, de certa forma, eram acolhidos e protegidos pelos vizinhos. Depois que veio essa mania de mandar para o hospital por qualquer coisa. Bem, o nosso chamava-se Aguinaldo Ribeiro, morador da última casa da rua. Ele passava o dia a planejar modelos mais práticos de xícaras, sabonetes econômicos e tudo o que você possa imaginar. Era uma figura excêntrica. Dizia mesmo: - Afinal estamos no século XVIII? Vivemos entre métodos rudimentares! 
Como as crianças são naturalmente bisbilhoteiras, nossa brincadeira era observar secretamente a casa de Aguinaldo Ribeiro por uma janela sempre semiaberta de uma estreita esquina. E uma mistura de medo e curiosidade alimentava a imaginação. Tínhamos a impressão de que todos os objetos e seres moventes da casa se entreolhavam: o autorretrato de olhos gigantes em frente à poltrona vermelho encardido, um possível rato em posição de guerra a defender sua prole sobre o tapete carcomido da sala de jantar, as traças, baratas e aracnídeos de todas as espécies. Certamente, Aguinaldo Ribeiro fingia que não nos via. Dava algumas baforadas de seu charuto, tomava um gole de conhaque e mostrava serelepe a sua língua azul. Um riso de dentro para fora eclodia por toda a sala, provocando uma debandada geral das crianças pela rua afora. 
Dessa cena pitoresca do passado, sou arremessado de volta para meu estado de tristeza vaga e indefinida, talvez movido por um sentimento de melancolia que começa a ficar mais forte neste tempo de pandemia, que insiste não ir embora. 
 

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