Tacchino Ristorante, uma quinta-feira noturna de música, poesia e emoção. Alann Marino e sua banda jazzy celebrava a obra dos grandes compositores mineiros do Clube da Esquina. Nada menos que Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Flávio Venturini, o especialíssimo Milton Nascimento, dentre outros, que fundiram a amizade, a mineiridade e a resistência cultural que tocava nossos corações. Éramos quase todos estudantes dos anos de 1970, exceto um pequeno grupo de meninos e meninas muito jovens que estavam se divertindo como se estivessem numa bolha, de costas e alheias quando falávamos das cores, das tempestades, dos avisos. Eles não sabiam interagir com aquela fusão do regionalismo mineiro e influências globais do rock progressivo, jazz, bossa nova, música erudita e latino-americana.
A apresentação já começava em alta rotação com “Fé cega, faca amolada”: “Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada. Agora não espero mais aquela madrugada. Vai ser, vai ser, vai ter que ser faca amolada”... De imediato me veio na memória aquele desprezo de 1979. Mas a UNE estava sendo reconstruída no congresso de Salvador e eu fazia parte da gestão do grêmio estudantil que foi batizado de “Faca amolada”. Afinal de contas, o “brilho cego de paixão e fé, faca amolada”!
O show seguia com de tudo, um pouco. E os meninos e meninas continuavam tagarelando, sem olhar para a janela, de onde víamos uma igreja, um muro branco, um pássaro em voo rápido. Grades antigas, sinais gastos, homens que não escutam. Tudo o que a gente pedia para os meninos e as meninas da bolha eram simples e imenso: morar junto, nem que seja no pensamento, enquanto o vento solar passava e a terra azul insistia em girar. E o pensamento girava, girava, girava. Porque há músicas que não se ouvem, se atravessam. Elas passam por dentro da gente como estrada de ferro antiga, rangendo memória, paisagem e decisão. Porque no fundo, Marias do mundo e janelas abertas, como uma força que nos alerta...
Pois é, o Clube da Esquina sempre foi assim — não um disco, mas um modo de andar pelo mundo. Se eu canto, não chores — é só poesia, essa força silenciosa que ri quando deve chorar, que não vive, apenas aguenta. Eu sei, meninos e meninas da bolha, vocês não sabem do lixo ocidental, mas “não precisam mais temer. Não precisam da solidão. Todo dia é dia de viver”. Por que vai ser, vai ter de ser um girassol que abre a juventude ao sol, a paisagem vista da janela, aquele trem azul que passa levando sonhos da América inteira. “Eu sei [meninos e meninas da bolha], vocês não vão saber [...] Sou do mundo, sou Minas Gerais”