Os sistemas fisiológicos e órgãos têm capacidade de se adaptar temporariamente às demandas aumentadas ou diminuídas. A função renal (taxa de filtração glomerular - TFG) pode aumentar para além de 100 mL/min em algumas situações. A produção de glicose pelo fígado e rins (gliconegogênese) pode aumentar de zero (estado alimentado) até 150 g/dia (jejum de 1 a 20 dias). A secreção de insulina chega até 50 microunidades/mL após o consumo de alimentos ricos em carboidratos.
AJUSTES
As funções mencionadas acima são alteradas de acordo com seus comportamentos de alimentação, hidratação, jejum, exercício físico, estresse etc. Mas o fato é que ninguém pensa voluntariamente: vou aumentar minha TFG, gliconegogênese hepática e renal, a secreção de insulina etc, pois esses processos, apesar de serem essenciais para manter a homeostase, não trazem benefícios adicionais.
OS TRÊS
Mas há três sistemas fisiológicos nos quais você pode pensar em estimular voluntariamente, o que provoca adaptações e benefícios em curto, médio e longo prazo. Os sistemas muscular esquelético e cardíaco, e sistema nervoso são altamente plásticos, ou seja, responsivos e adaptáveis aos estímulos, melhorando significativamente e de forma relativamente permanente suas funções.
SISTEMA MUSCULAR ESQUELÉTICO
Dependemos dos músculos para [1] manter a postura, [2] realizar movimentos, [3] sustentação de cargas, [4] produção de miocinas (espécies de hormônios) e [5] estimular outros sistemas fisiológicos e órgãos. Ao movimentar os músculos estimulamos de maneira benéfica o coração, cérebro, sistema imune, sistema gastrintestinal e outros. Com a contração frequente (treinamento), os próprios músculos se adaptam em sua estrutura, metabolismo e função, aumentando o volume/massa, capacidades de força e resistência. Essas adaptações podem ser consideradas como “reservas” para uso de acordo com a demanda e uso futuro na senescência.
MÚSCULO CARDÍACO
Os músculos em contração dependem do coração para enviar maior volume de sangue com O2 e nutrientes, assim como remover CO2 e metabólitos (moléculas que o músculo dispensa). Por isso, a contração muscular faz aumentar o trabalho do músculo cardíaco (percebido na frequência cardíaca), que também se adapta com o treinamento em sua estrutura, metabolismo e função, ficando mais eficiente. Não podemos comandar o coração diretamente, porém, estimular os músculos esqueléticos significa estimular também, de modo benéfico, o músculo cardíaco. Isso, mais a diminuição dos fatores de risco cardíaco que o treinamento proporciona, aumenta as chances de que o coração continue funcional por mais anos.
SISTEMA NERVOSO
Esse sistema pode ser estimulado por atividades cognitivas diversas que dependem das funções superiores, tais como memória, análise, aprendizagem etc. Leitura, aprendizagem de outra língua ou instrumento musical, palavras cruzadas etc. O exercício físico pode dar significativa contribuição com a aprendizagem de novos movimentos e por meio das miocinas secretadas pelos músculos (irisina, catepsina-B) e pelo próprio cérebro (BDNF). Prevenção da neuroinflamação, estímulo da neurogênese e mielinização estão entre os benefícios.
RESERVA FAZ A DIFERENÇA
As adaptações e “reservas” constituídas nos músculos, coração e sistema nervoso são especialmente importantes no período da senescência, quando a degeneração e perda de função são inevitáveis. Estar preparado e dispor de uma “poupança” que dure um pouco mais, faz bastante diferença.
Jair R. Garcia Jr. é palestrante de saúde, fisiologista (ICB-USP) e professor da Unoeste. [email protected] Instagram: @jairgarciajr.prof
Ao movimentar os músculos estimulamos de maneira benéfica o coração, cérebro, sistema imune, sistema gastrintestinal e outros.
Referências
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