Museus em chamas

OPINIÃO - Maurício Waldman

Data 12/09/2018
Horário 04:06

Estarrecido, acompanhei o incêndio que converteu o Museu Nacional numa central de incineração, transformando em cinzas milhões de itens da cultura e da ciência nacionais. Isto sem contar peças indexadas ao patrimônio cultural da humanidade. Lamentavelmente, o que vemos após este desastre pavoroso, é simplesmente uma troca de acusações entre autoridades que, em comum, respondem pela esfera supostamente pública, que infelizmente se tornou uma muleta semântica, eufemismo para que nada seja feito. Deu no que deu.

No caldo de cultura vivido nos últimos anos no país, permeado por profundo sentimento de mal-estar, a combustão do Museu Nacional ocorre num clima de caos administrativo que parece ter tomado conta de vez da nação. Logo, cabe ao menos avaliar o que calçou a calcinação de naco irrecuperável da memória nacional. Afinal, como anotou o geógrafo Milton Santos, glória da inteligência nacional, a desordem, é apenas a ordem do possível, já que nada é desordenado.

Atenhamo-nos, antes de tudo, ao fato de que tragédias que levam de roldão acervos culturais inteiros, não são novas. Tampouco, restritas às plagas verde-amarelas. A saber, a herança greco-latina foi em grande parte premeditadamente destruída na Europa medieval. Papas e senhores feudais incendiaram museus e bibliotecas carimbadas como bastiões do paganismo, lacraram escolas de medicina e encarceraram sábios e filósofos, dos quais, milhares foram conduzidos sem piedade para a fogueira.

A Biblioteca de Pérgamo, com 200 mil volumes, ícone da herança grega clássica, foi torrada sem hesitação. Seu patrimônio reduziu-se a um punhado de pergaminhos pouco superior em número aos que restaram da queima dos arquivos maias pela sanha dos conquistadores espanhóis. Atos como estes, levados a cabo com zelo apaixonado pelos feudais e autoridades eclesiásticas, reduziram a Europa medieval a um deserto cultural.

Porém, a devoção em “purificar” a sociedade pelas chamas, embora prática antiga, foi tonificada ao máximo na Alemanha nazista. No nefando regime hitlerista, a título de uma vez mais depurar a sociedade, adeptos de Hitler perpetraram incansáveis operações de “Bücherverbrennung”, que em bom alemão significa “queima de livros”. O pior é que não faltaram arautos a emular esta barbárie. Joseph Goebbels, ministro da propaganda do Reich, as classificava como “Ein Moment des Ruhmes des deutschen Volkes”. Isto é: “Momento de glória do povo alemão”.

Mas, um dado essencial distingue a hecatombe do Rio dos ataques ao conhecimento no passado. Aqui, as labaredas não resultaram de fanáticos religiosos ou de prepostos de uma ditadura. Ou seja: não foram programadas diretamente por ninguém. Contudo, a carbonização do museu, ao refletir uma desordem administrativa, evidencia uma ordem que tornou possível esta catástrofe. Recordo a máxima do saudoso sociólogo Ricardo Ferraz, de cuja amizade honradamente desfrutei, para quem o Brasil era regido por um Estado Desagregador.

Ricardo, dissecando de modo penetrante a atuação do Estado como instaurador da desordem, não hesitou em percebê-lo como um ator voltado a atender interesses nada republicanos de frações da sociedade, jamais da comunidade nacional como um todo. Assim, enquanto os políticos desfrutam de benesses como o “Fundo de Desenvolvimento da Democracia", dinheiro abduzido, por exemplo, da educação e cultura, financiando a eleição dos que nada tem feito, nossa memória padece de terrível situação de abandono.

Logo, a premeditada inação da esfera pública, não interessa que o foco seja Brasília ou a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), até porque ambas são instâncias federais, desdobrou-se num holocausto do saber numa proporção de fazer inveja a Goebbels, que deve estar se revirando no além. Daí que crimes na mesma escala de desastres como os do Museu Nacional, certamente se repetirão. Vergonha, indignação e revolta.

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