No amor não mando

OPINIÃO - Helber Henrique Guedes

Data 24/01/2026
Horário 04:30

Esses dias escutei uma entrevista do Mateus Aleluia ao Estadão. Músico, cantor, compositor e pesquisador baiano, nascido em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, ele foi um dos integrantes da formação original dos Tincoãs. Ao longo de sua trajetória, aprofundou sua relação com a ancestralidade africana, vivendo em Angola a partir dos anos 1980, onde desenvolveu pesquisas junto a mestres e mestras de saberes tradicionais.
Nessa entrevista, não era daquelas conversas apressadas, em que tivesse que haver resultado ou em que fosse preciso sair dali com uma solução. Era daquelas conversas que a gente escuta devagar, sem pressa, como quem não quer perder o fio do pensamento. Teve um momento em que ele falava sobre o amor e não como sentimento romântico, nem como uma ideia, mas como força que move a nossa vida. Aquilo ficou reverberando em mim. Falava do amor sem tentar explicar demais, como quem sabe que certas coisas, quando a gente explica muito, se perdem.
Depois voltei à canção “No amor não mando”. E parece que uma coisa puxava a outra. Quando ele canta “o amor do mundo me manda o amor, quando o amor me manda eu sigo”, não há exagero. Há escuta. Há entrega. Há movimento nessa escolha. Ele segue cantando que busca ir de caravela, de carro de boi, de jegue ou teco-teco, do jeito que der. O amor não só nas nossas vidas aparece como conforto, mas sempre como algo que tivéssemos que atravessar. Sem controle, mas como algo que chama.
Aquilo ficou me cutucando quando pensei na vida dos coletivos. A gente costuma explicar os afastamentos como divergência política, mas a história quase nunca é só essa. E, na prática, não é só isso. Muitas rupturas acontecem por cansaço, por solidão, por não-escuta. Por ambientes duros demais, frios demais, impacientes demais. Tem ambientes que vão ficando duros com o tempo. Tudo vira tarefa, cobrança, ritmo. Falta espaço para dizer “não estou bem”, “não estou dando conta”, “preciso diminuir um pouco”. E, quando isso não cabe, a pessoa não confronta; simplesmente vai embora.
Talvez o acolhimento entre as pessoas não necessariamente precise ser um detalhe organizativo, mas uma condição para que a luta continue existindo. Não no sentido de aliviar o conflito, mas de entender que ninguém sustenta um processo longo se ele não for também um espaço de vínculo. Escutar o outro, reconhecer limites, acompanhar tempos diferentes não diminui a política. Pelo contrário, dá corpo a ela. Porque nenhuma transformação acontece se o coletivo vai se esvaziando aos poucos.
Quando Mateus diz que no amor não manda, talvez esteja falando também disso: há momentos em que não se conduz, não se apressa, não se corrige. Há momentos em que o mais político é permanecer junto, mesmo sem saber exatamente qual será o próximo passo. Num mundo que exige produtividade até dos sentimentos, lembrar que o amor também educa é quase um gesto de resistência. Porque nenhuma transformação é possível se, no caminho, a gente for deixando gente para trás. Aí é que o amor deixa de ser discurso e vira prática cotidiana. E talvez seja isso que, no fim das contas, mantém as pessoas caminhando.
O amor fala.
A questão é se ainda sabemos escutar.
 

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