O Bêbado e o Médico

Sandro Villar

O Espadachim, um cronista a favor dos frascos e comprimidos

CRÔNICA - Sandro Villar

Data 24/10/2021
Horário 07:00

Bom de copo e de garfo - ou seja, beberrão e glutão -, o Aristides, tirador de sarro, começou a sentir os efeitos dos excessos da bebida e da comida. A mulher e os amigos estavam preocupados com o sujeito, um negacionista de carteirinha, como é moda no triste e bizarro Brasil atual.
 "Você precisa fazer uma consulta com o médico da vila", sugeriu o Miguelão, amigo de longa data e de farras, dessas em que o diabo não participa para não se sentir inferiorizado, assim como o Brasil diante dos EUA.
 A princípio, o Aristides torceu o nariz, logo ele um narigudo, e, resumindo este papo de botequim, rechaçou o conselho do amigo. Uma noite, porém, passou mal à beça e foi parar no Pronto-Socorro do único hospital da cidade.
 Foi atendido por uma enfermeira, que mediu a pressão arterial do gajo: 23 por 13. "Muito alta, seu Aristides. O senhor precisa fazer regime, comida quase sem sal, e precisa também suspender a bebida", aconselhou a enfermeira. Gozador, o paciente brincou: "Vou suspender a bebida no teto". A moça sorriu amarelo talvez por estar na fase amarela, como, aliás, está muita gente hoje em dia e hoje em noite.
 Como o calo começou a apertar, o Aristides ficou preocupado e, temendo bater as botas e outros calçados, decidiu se consultar com o médico, acatando, portanto, a sugestão do Miguelão.
 No dia seguinte bem cedo, lá estava o Aristides no consultório do doutor Everaldo. Foi recepcionado pela secretária. "Um momentinho. O médico logo vai examinar o senhor", disse a moça. O paciente esperou pouco tempo.
 "Entra!", ordenou o médico. E logo veio a pergunta clássica, após o médico tirar o estetoscópio do ouvido: "O senhor bebe?", perguntou o doutor Everaldo. "Aceito, sim senhor", respondeu, sarcasticamente, o Aristides. O médico percebeu que estava diante de um gozador e ignorou a ironia do sujeito.
 Logo depois, o médico fez mais uma pergunta: "O senhor fuma?" O paciente passou a mão na cabeça, já pensando na resposta, pigarreou, enrolou um fio de barba - talvez dois, sei lá - e mandou ver: "Só charuto". E acrescentou: "Cubano!".
 Aí já foi demais. Muita cara de pau, cinismo inaceitável do paciente. O médico se irritou e, com voz alta à la Cid Moreira, anunciou: "O senhor vai morrer". Aristides nem aí e, talvez à la Groucho Marx, emendou de bate-pronto: "O senhor também vai morrer".
 E não é que o médico se acalmou? Os dois caíram na maior gargalhada, mas logo se levantaram e foram tomar uma no bar da esquina. Ficaram amigos do peito e, dizem as más línguas, o Aristides acabou levando o doutor Everaldo pra gandaia.  

 

 

DROPS

Quem casa quer casa ou casarão.

Em terra de cego quem tem um olho faz o pé-de-meia e até a mão de meia.

Perguntinha inocente: Angola sabe lidar com vigaristas da religião?

Sorria, mesmo atrás da máscara.

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