Há dias em que a vida parece seguir um roteiro milimetricamente desenhado pelo destino. Para a dona de casa Maria Aparecida dos Santos, moradora de Rinópolis, aquela tarde parecia apenas mais uma jornada de passos cansados e contas contadas. Vivendo com as limitações impostas por problemas de saúde que a impedem de ter um emprego fixo, ela equilibrava o orçamento entre um pequeno benefício do governo e serviços avulsos, os famosos "bicos". O orgulho de sua vida era não deixar nenhuma conta atrasar. Não sobrava, mas também não devia.
Foi caminhando pelo centro da cidade que o acaso — ou a providência — a fez parar em frente a um ponto de vendas do título de capitalização da CiaCap, cujos recursos ajudam a custear os tratamentos do HE (Hospital de Esperança). Maria olhou para o balcão. Hesitou.
"Eu entrei por acaso. Nem tinha certeza se ia comprar, porque não sabia se o dinheiro ia dar", relembra ela, com a voz mansa de quem conhece o valor de cada centavo. O impulso de ajudar o hospital oncológico que atende toda a região falou mais alto. Ela separou as moedas, escolheu uma cartela e estendeu à vendedora. "Pedi para a menina preencher. Ela me pediu os dados e disse: 'Agora é só confiar'. Eu respondi na hora: 'Eu confio em Deus'."
UMA VIDA DE BATALHAS E O TRAUMA DO PASSADO
Quem conversa com Dona Maria descobre uma mulher de fibra, que moldou sua história na base do esforço solitário. Mãe de dois filhos, frutos de relacionamentos momentâneos do passado, ela conta com bom humor e sinceridade que preferiu seguir a vida solteira por "trauma de casamento". Sem um companheiro para dividir os boletos e os desafios da criação dos filhos, ela aprendeu a ser o esteio de si mesma, batalhando dia após dia, sem desanimar diante dos diagnósticos médicos ou das dificuldades financeiras.
Para ela, a vida já estava "ótima" porque conseguia saldar as dívidas e manter o nome limpo. Mas o destino guardava uma virada de página impressionante. A cartela comprada na dúvida, com o dinheiro contado, era exatamente a grande premiada. O anúncio mudou tudo: Maria Aparecida era a nova ganhadora de uma bolada de R$ 200 mil.
"DEUS NÃO ME DEU SÓ UMA CHAVE, ELE ME DEU DUAS"
A emoção tomou conta do ambiente quando Maria recebeu a confirmação do prêmio. Com os olhos marejados e as mãos trêmulas, ela revelou o diálogo silencioso que mantinha em suas preces muito antes de segurar o título de capitalização. O dinheiro não representa luxo, vaidade ou ostentação; representa a dignidade de um teto que seja verdadeiramente seu.
"Inicialmente, o que eu pedi a Deus foi a chave da minha casa. Inclusive, quando eu conversei com Ele, eu pedi a chave da minha moradia. Ele foi tão bom que não me deu só uma chave, Ele me deu duas", desabafou a ganhadora, chorando de alegria ao perceber que o valor recebido é suficiente para comprar mais de um imóvel ou estruturar sua vida com total segurança.
Ao ser questionada sobre o que diria para as pessoas que, assim como ela, passam a vida tentando uma sorte que parece nunca chegar, a moradora de Rinópolis deixa uma lição de persistência e fé para todo o Oeste Paulista: "Acreditem. Não deixem de comprar e de ajudar. Por mais que passe o tempo e pareça demorado, a vez de cada um chegará."