O fim da improvisação

OPINIÃO - Walter Roque Gonçalves

Data 25/01/2026
Horário 04:07

Durante muitos anos, improvisar foi quase um requisito para empreender no Brasil. A instabilidade econômica, as mudanças frequentes de regras e a burocracia excessiva forçaram empresários a tomar decisões rápidas, muitas vezes sem dados, sem planejamento e sem método. O problema é que esse modelo, que já foi compreensível no passado, tornou-se insustentável diante do cenário atual.
O ambiente econômico que se consolida em 2026 não tolera mais empresas desorganizadas. Juros elevados por mais tempo, crédito seletivo, margens pressionadas e consumidores mais cautelosos formam um contexto onde errar custa caro — e insistir no improviso custa a sobrevivência do negócio.
Na prática, a gestão amadora se manifesta de formas conhecidas: ausência de controles financeiros confiáveis, mistura de contas pessoais com as da empresa, estoque desorganizado, precificação baseada apenas no concorrente e decisões tomadas no “achismo”. São empresas que faturam, trabalham muito, mas não sabem exatamente onde ganham ou perdem dinheiro.
Imagine uma empresa hipotética do setor de distribuição que cresce em volume, mas não acompanha seus indicadores. As vendas aumentam, o faturamento sobe, mas o caixa vive pressionado. O empresário atribui o problema ao mercado, aos impostos ou aos juros. No entanto, ao olhar com mais atenção, descobre-se que o aumento das vendas veio acompanhado de prazos maiores, margens menores e custos operacionais que nunca foram revisados. Cresceu o esforço, não o lucro.
Outro sinal clássico da gestão improvisada é a dependência excessiva do dono. Tudo passa por ele: compras, vendas, pagamentos, decisões estratégicas e até tarefas operacionais. O negócio até funciona, mas é frágil. Basta um problema pessoal, uma doença ou uma ausência prolongada para que a empresa entre em colapso. Isso não é empreendedorismo; é sobrecarga disfarçada de dedicação.
O fim da improvisação não significa burocratizar a empresa, mas profissionalizá-la. Significa ter números confiáveis, rotina de análise, clareza sobre custos, margem, ponto de equilíbrio e fluxo de caixa. Significa transformar decisões emocionais em decisões técnicas. Não é perder agilidade, é ganhar precisão.
Em 2026, sobreviverá quem entender que gestão não é um detalhe administrativo, mas o coração do negócio. A improvisação, que um dia foi virtude, agora é fraqueza. E o mercado não costuma ter paciência com quem demora a aprender essa lição.

 

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