O Jornalista que Namorou a Ruth Escobar (historinha dos bastidores da tevê)

Sandro Villar

O Espadachim, um cronista contra esse frio siberiano

CRÔNICA - Sandro Villar

Data 22/08/2020
Horário 05:30

Entre meados dos anos 70 e "até 1980 e cacetada" (dizem que a expressão é aceita em Portugal), o Névio Roberto Gomes, de saudosa memória, foi editor de Internacional do telejornal Hora da Notícia na TV Cultura, em São Paulo. Trabalhei com ele não exatamente como editor-assistente. Apenas o ajudava em algumas matérias com jeitão de trolhas. 
Notei que, em sua maioria, a equipe não gostava muito de editar matérias do exterior porque, com mais textos, era mais trabalhoso. Aí sobrava pra mim e lá ia eu dar uma mãozinha pro Névio. Todos sabem: quando não há correspondentes, o editor, no caso da televisão, escreve mais nas "notas cobertas" em comparação com uma matéria, digamos, local na qual o pé de boi é o repórter, que traz tudo prontinho da rua.
 Alto, magro, cabelos lisos e longos, o Névio tinha pinta de roqueiro e se deu bem na chamada arte da conquista. Por falar em conquista, namorou ninguém menos do que a atriz Ruth Escobar, a quem chamava de "a minha mulher". Assim mesmo: a minha mulher.
Durante uma conversa na redação, percebi que ele estava empolgado por namorar uma mulher tão importante como a Ruth Escobar. Aviso que não exagero ao citar a palavra empolgado. Acho que cabe até mesmo o termo encantado. Era assim mesmo que ele estava e, pensando bem, qual é o sujeito que não ficaria empolgado por namorar uma atriz do porte da Ruth Escobar?
Nem eu nem outros amigos tínhamos visto antes o Névio tão feliz. Alguém perguntou: "Quem é essa mulher?". Com uma ponta de orgulho, ele subiu um pouco o tom da voz e foi direto ao ponto e, talvez, à vírgula: "É a Ruth Escobar. É a minha mulher". Que legal! Bacana isso. Não sei como terminou o romance, mas sei que, depois, ele foi contratado pela Globo, do nosso companheiro redator-chefe João Roberto Marinho, e atuou como editor do telejornal Hoje.
Anos depois o Névio adoeceu. Tinha um tumor no cérebro. Não resistiu por muito tempo. Foi enterrado no Mausoléu dos Jornalistas no Cemitério São Paulo. Alípio Freire, grande amigo do Névio, discursou e falou belas palavras de consolo e de luta até porque Névio Roberto Gomes nunca fugiu da luta e, ainda por cima, foi o jornalista que namorou a Ruth Escobar. Desculpem, mas eu queria que vocês soubessem disso.
 
P.S.: Como todo mundo sabe, a Ruth Escobar também já foi embora deste insensato mundo e faço aqui uma confissão. Depois que escrevi esta crônica, eu sonhei com ela e no sonho a atriz dizia mais ou menos o seguinte: "Quando é que você vai me mandar o e-mail com a crônica sobre o Névio?" Não conheci a Ruth pessoalmente, mulher guerreira que lutou pela democracia, correndo riscos, e construiu, em São Paulo, um teatro que leva o seu nome.

DROPS

Bolsonaro não passa as 24 horas do dia pensando na reeleição. Passa 18 porque nas outras seis horas ele dorme.

Príncipe quer ser prefeito de São Paulo. Se ganhar, instala-se a nobreza na maior cidade do país?

Responda depressa: quantas estrelas existem no céu da boca?

Os juros não dormem.
(Barão de Itararé)
 

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