O labirinto

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 24/01/2026
Horário 05:00

O jovem, com seus 20 e poucos anos mal vividos, gozando, de certa forma, de plena saúde mental, muito embora não tenha quase ou nenhuma experiência de vida, precisava, como todos, dar rumo à sua vida, o que, como sabemos, não é algo simples e corriqueiro. Na condição de pequeno burguês em um país pobre e desigual como o Brasil, suas opções são relativamente amplas, podendo, na prática, escolher caminhos que oscilam entre estudar e trabalhar, ou estudar para trabalhar, ou, não estudar e nem trabalhar, ou, apenas trabalhar. De todo modo, a era digital oferece outras possibilidades, ser e influenciar, o que não configura nenhuma das opções anteriores. 
Na encruzilhada de escolhas fáceis e difíceis, com variações labirínticas em cada uma delas, optara, até aqui, a não tomar decisão alguma, adiando, como podia, o início da vida adulta, sofrendo, contudo, pressões variadas, subjetivas e objetivas. Em relação à segunda questão, urgia a necessidade de “tomar jeito na vida”, o que, na concepção de seus pais, significava passar no vestibular, estudar direito ou engenharia e “ser alguém na vida”. Além do mais, era intolerável aos genitores vê-lo em casa, “perdendo tempo na vida”, um “vagabundo” como diziam parentes próximos. Subjetivamente, sofria, perdido, pressionado pelas circunstâncias externas que se colocavam. Na prática, porém, sofria mais pelo fato de que, no seu íntimo, talvez não quisesse “nada com nada”. 
Bem, perdido, de fato, ele estava, quando, na realidade, consideramos esses valores como sendo universais. No fundo, no labirinto de sua vida, cada veio possível mostrava-se infrutífero e de certa infelicidade. Por isso, no dia a dia, nada fazia, ou melhor, fazia, vivia. Por quais razões não podemos apenas viver, sem tais necessidades que se impõem de forma tão opressora sobre todos nós e sobre o jovem, em especial. Diletante na vida usual, pleno na contemplação subjetiva, o jovem sonhava, todo o tempo, com possibilidades infinitas. Como experimentá-las? Como fazer delas o mote de sua parca existência? Pensou dias e meses na derradeira questão, até o limite das pressões cotidianas a seu modo de vida. Encontrou a solução, contudo. 
O papel em branco. Era ali, no papel em branco, em frente ao computador, com seu teclado QUERT, com possibilidades infinitas que o jovem deu sentido e alento à sua existência. Viveu, morreu, amou, experimentou, gozou da existência de personagens intensos, estórias insólitas e imaginação livre. A cada nova linha, digitada sofregamente, experimentava, diuturnamente, da plenitude das existências alheias, cheias de labirintos escondidos em seus inconscientes. Foi feliz, encontrou-se, escreveu um excelente livro, publicado, aclamado pela crítica, fez-se, homem de sucesso, ainda que incompreendido pelos pais, que não chamavam aquilo de trabalho. Vendeu livros, muitos, e finalmente, o dinheiro os convenceu de seu sucesso. 
Escritor famoso, lido, relido e comentado, aclamado e superestimado. Sentia-se, ainda, no seu labirinto interior, sem saber, afinal, que rumo tomar. Cansou, pensou e decidiu. Não, a vida não é para mim. O suicídio, cometido aos 23 anos, abriu-lhe, outra vereda, com novos labirintos a explorar, quem sabe. 
 

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