Há no Brasil uma crença perigosa e silenciosa: a ideia de que, diante da falência do sistema de justiça criminal, matar o criminoso seria uma forma legítima de proteção social. É o mito do “matar pelo bem”. Ele aparece nas redes sociais, em conversas de bar, nas manchetes e até em discursos públicos. Para muitos, se o Estado não funciona, a execução sumária funcionaria. Bastaria eliminar quem “não merece viver”.
Essa lógica é sedutora, mas profundamente enganosa. Ela ignora que ninguém é justiceiro só até a página dois. Quando um agente do Estado cruza a fronteira que separa o uso legítimo da força da execução arbitrária, rompe a linha que garante sua própria legitimidade. Deixa de ser executor da lei e passa a ser executor da própria vontade.
E, a partir daí, algo previsível acontece: quem mata pelo bem descobre rapidamente motivos para matar pelo mal.
A psicologia é clara. Ao naturalizar a eliminação de alguém sem julgamento, a violência deixa de ser exceção e passa a ser instrumento. Surge a dessensibilização moral, a sensação de poder sem controle e a percepção de que o fim — qualquer fim — justifica os meios. O mesmo agente que hoje executa o “criminoso perigoso” amanhã pode executar quem incomoda politicamente, quem ameaça economicamente ou quem paga melhor. É assim que nascem milícias, grupos de extermínio e pistolagem a serviço de interesses privados.
A história brasileira confirma o padrão: onde se tolera o “matar pelo bem”, logo floresce o “matar pelo mal”. A fronteira entre um e outro é tão tênue que se dissolve no primeiro disparo não autorizado. E quando isso ocorre, o Estado deixa de ser o guardião da legalidade e passa a disputar poder com forças paralelas que ele próprio gerou.
Nenhuma sociedade democrática pode sobreviver a esse tipo de acordo tácito com a barbárie. O pacto civilizatório exige que a vida humana não seja moeda de troca nem ferramenta improvisada de segurança pública. Não é o sistema de justiça que se fortalece quando se tolera a execução; é a lógica da violência. E, uma vez instalada, ela não escolhe vítimas com critério moral — atinge todos, indistintamente.
O verdadeiro combate ao crime exige instituições fortes, não justiceiros. Exige legalidade, não vingança. Exige Estado, não atiradores autônomos. O que parece solução rápida transforma-se, cedo ou tarde, no mais grave dos problemas: um país em que ninguém sabe, ao certo, em nome de quem — ou de que — se mata.