Olha o giclê, gente!

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 14/11/2021
Horário 22:06

O primeiro carro que eu tive foi um Volkswagen TL 1974 “azul calcinha” de duas portas, lanternas traseiras tricolor, com luz de ré e um motor 1600 traseiro montado na horizontal. TL era uma sigla originada dos termos ingleses relativos à “Turismo”e “Luxo”. Eu tinha 20 anos e estava cursando geografia na PUC de São Paulo e já era professor na educação básica. Sim, com dois anos de trabalho, um jovem professor conseguia comprar um carro naquela época. Estávamos em 1983 e eu já havia economizado alguns recursos que me permitiram aventurar na compra do primeiro veículo. A lataria dele estava linda, assim como os estofados e painel do volante. Mas havia um pequeno detalhe: aquele carro havia sido adaptado e convertido para o consumo de álcool. Para quem não sabe, tais adaptações provocavam vários problemas técnicos nos veículos. Os primeiros carros a álcool, ao serem ligados, tinham que permanecer durante certo período aquecendo o motor. Não bastasse isso, o meu TL tinha muitos problemas no tal do “giclê”, cuja função eu aprendi na marra. Certamente quem entende de mecânica automotiva pode explicar melhor a serventia do giclê no controle do fluxo do combustível que passa pelos canais de alimentação do carburador. Mas no meu caso, o giclê vivia encharcado de álcool, o que tirava a força do motor. Aí eu tinha que, em pleno trânsito de São Paulo, descer do carro, abrir a traseira do veículo, distorcer e soprar o famoso giclê para retomar a viagem… Não precisou de muito tempo. Eu desisti do meu primeiro empreendimento e logo voltei ao percurso de ônibus até a escola que eu trabalhava.
Agora tudo mudou. Segundo pesquisas recentes, quase 30% de quem usa automóvel em São Paulo gostaria de mudar de tipo de transporte, acompanhando uma tendência mundial de quem não aguenta mais despender mais de 3 horas por dia no deslocamento de casa para o trabalho. Não bastasse isso, o isolamento forçado pela pandemia de Covid-19 agravou ainda mais a crise do sistema de transporte público que, além de caro e desconfortável, foi perdendo viabilidade financeira para as empresas concessionárias.
Sabemos muito bem que estas novas tendências e dificuldades não fazem parte apenas do cotidiano das metrópoles, haja vista a dramática situação do transporte público de Presidente Prudente. Há uma empresa em insolvência, uma concessão que não funciona, um sistema ineficiente que concorre com o tempo de deslocamento a pé entre os pontos de origem e destino. Como está não pode ficar. E o mundo ficou bem mais complicado do que nos tempos do meu TL “azul calcinha”.
 

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