Silêncio

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 05/12/2021
Horário 04:30

Estou diante de um dilema. Eu não quero falar nada. Eu preciso ficar em silêncio... e para alcançar essa espécie de estado de espírito, tenho um longo caminho a percorrer no mar de palavras que nos rodeiam. 
Parece ser um sinal dos tempos. No mundo das redes e das bolhas das quais fazemos parte não existe o lugar do silêncio. Para acreditarmos que existimos nós temos que dizer sempre alguma coisa? Emitir opiniões alheias? Repeti-las à exaustão? Ocupar  a mente com o fluxo incessante das palavras, mesmo que elas não sejam minhas, mesmo  que não façam o menor sentido ao saírem pela minha boca? É... as redes são feitas de palavras. Rios caudalosos...
Cale-se. Tente mesmo que por alguns segundos não pensar em nada. Não diga nada. Duvido que consiga... Entende agora o meu drama?
Daí eu respirei bem fundo e fiquei imaginando nuvens de palavras saindo com o ar pela minha boca. Senti que o exercício começava a surtir algum efeito e persisti no ritmo lento e profundo da respiração. Eu sabia que não estava inventando nada... o simples ato de respirar, aparentemente tão simples, tem sido perseguido pelos antigos mestres budistas. Sim. É uma prática milenar. Desgarrar-se das palavras. Não pensar em nada. Apenas estar ali, olhando de frente nossa mísera existência. Talvez esse seja o sentido mais profundo de uma prece ou de apenas contemplar a bruma numa manhã bem fria. Aquele gosto amargo do café matinal. O canto do galo bem longe. Os vizinhos dormindo. Calmaria...
Na medida em que me livrava das palavras, eu pude escutar um zumbido permanente nos meus ouvidos. Seriam ecos das palavras não ditas? Proibidas ou sufocadas por aquelas que pensei serem minhas? Quantas vidas perdidas? Onde está meu pai? Por que gastar tanto dinheiro? Minha caixa de mensagens precisa de mais fotos tipo “sorriso Facebook”?
“Cale-se! Não deixe novamente o fluxo das palavras dominar a sua mente”, dizia eu para mim mesmo. “Mantenha o controle!”. E nessa batalha nada banal, voltei a respirar profundamente por alguns minutos. Foi uma experiência marcante. Tente você mesmo. Enquanto isso eu vou continuar buscando separar por aqui quais exatamente são as minhas palavras. Eu vou jogar fora muitas palavras que alguém insiste colocar na minha boca. Peraí, elas não são minhas! O silêncio guarda a verdade das coisas.
 

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