Sobre pássaros e gaiolas

OPINIÃO - Sandro Rogério dos Santos

Data 24/02/2019
Horário 08:00

O ser humano anseia pela liberdade, embora, com tantas violências em derredor, pareça abrir mão desta em benefício da segurança. Ele é pássaro não afeito a gaiolas. Singra mares e escala alturas... Mas hoje sobejam fechamento e ojeriza ao diferente. Portas, portões, porteiras, cercas, alambrados, cadeados e muros (de variadas alturas e materiais) são apetrechos de primeira grandeza. Certo modo, o homem parece lobo do homem, não um seu semelhante e irmão.

A fraternidade universal, na casa-comum, está afetada por delírios de líderes rasos e estreitos. Não me parece ter sentido o ser humano desejar se fechar, viver vigiado, com rédeas curtas e submetido a amplos controles. Pássaro a procura de gaiolas. Há tanta gente saudosista do passado, de recordação enviesada ignorando que as pessoas de hoje não são as de então; o cenário micro e macro, idem; as organizações social e institucional mudaram, o modo de participação mudou, o acesso a bens de consumo e de informação aumentou. Com 600 canais de televisão, há quem ressinta a falta de um só (para o pensamento único e igual).

Na contramão dessas mudanças o amor não aumentou na mesma proporção. Os olhos já não olham para além, senão somente para cá, dentro, no próprio cercadinho. Nossos vizinhos podem ser boas pessoas, desde que distantes, cada qual cuidando da sua própria vida e não interferindo na dos outros, especialmente, na minha. Uma raça amedrontada que pisca continuamente para o algoz a procura de proteção. Déspotas e outros de boa linhagem semeiam ventos de doutrinas negando a possibilidade da saudável interlocução. Colherão tempestades. Por todo lado pululam tempestades de corrupção, violência(!), injustas relações sociais, trabalhistas e quetais. Repetem cada qual a seu modo, tempo e interesse, refrões que lembram tempos distantes, ideias superadas, empoeiradas.

A democracia (poder e governo do povo, por representação ou diretamente) sofre violentos ataques; é um valor solapado. Quem defende, talvez sem a exata noção do perigo, sistemas contrários ao democrático só o faz por viver na democracia, na livre expressão das ideias, na busca de soluções para as dificuldades que surgem diuturnamente. O jornalista Jamil Chade sentenciou: “A democracia morre no escuro e em plena luz do dia. Ela morre e pode ser assassinada. Num beco de uma rua, na rachadura de uma barragem, num barulho de uma serra numa floresta, na falta de um leito, num envelope com dinheiro ou no medo de andar de mãos dadas. E é nosso papel permitir sua sobrevivência. Todos os dias.

O jornalismo tem sido, alguma vez com razão, combatido. Mas o que seria da democracia sem os profissionais que leem e oferecem diariamente a informação dos fatos cujos protagonistas não-raro querem nos omitir? Certamente não deveríamos ser homens de livro e autor únicos. As bolhas não são exclusividade das redes sociais. São próprias das pessoas que em grupos procuram reforçar vínculos e crenças, de quem compartilha ideias e ideais. Atualmente, a bolha parece formada por quem não aceita o diferente, o contraditório, que não se sente seguro de si nem das próprias convicções e, por isso, precisa combater as alheias.

Estamos numa hora grave da história. Seremos pássaros infelizes se flertarmos continuamente com quem nos engaiole em ideias estreitas e pequenas com a cantilena de que isso é o que nos falta para sermos um povo livre e feliz. Refrões e chavões de frases feitas e fáceis, assaz repetidos, não resolvem a complexidade da existência humana.

Seja bom o seu dia e abençoada (e livre) a sua vida. Pax!!!

 

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