Um novo recomeço

António Montenegro Fiúza

«Para você ganhar belíssimo ano novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, (…)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas (…)»
Receita de ano novo, Carlos Drummond de Andrade, extrato

Parece que chega de alvoroço, com barulho e estrondo, sem nenhuma discrição ou sobriedade; grandioso, promissor, perentório, imponente e imperativo, é recebido com gritos, fogos de artifício, festas e abraços, promessas de um novo eu e de um novo mundo. Mitos, lendas e ritos, demônios expurgados ao som de tambores e batuques. Perdoam-se os inimigos e amam-se os amigos com redobrada pujança. Um ano novo, um novo (re) começo.
Começa em Díli, sete horas depois, mas no tempo certo, chega a Maputo; demora uma hora para alcançar Luanda e mais outra hora para tocar Lisboa, Bissau e São Tomé em simultâneo; para chegar à praia, uma outra hora, até que em duas horas, chega a Brasília. Em 14 horas, mais de metade de um dia, mais do que meio mundo, a lusofonia é toda ela tocada pelo novo ano.
Parece que chega de supetão, mandão e autoritário, mas não! A cada segundo do ano velho, foi-se construindo este novo ano, a cada decisão, a cada sim e a cada não. Chega carregado de promessas... algumas vãs e assumidamente votadas ao fracasso; outras sinceras, mas cujo final dependerá única e exclusivamente de nós.
Parece novo, tanto quanto o calendário intocado e a agenda alvíssima, de folhas brancas, prometendo uma nova vida, mas não o será, se se mantém o velho homem e a velha mulher, com os mesmos hábitos, costumes e desculpas. 
Tão estranho e novo quanto pareça ser o ano de 2021, ele começa carregado de nós, todos nós, seres humanos em toda a sua perenidade, individualidade e humanidade: calejados pelas dores passadas, enriquecidos com a aprendizagem feita, num ano atípico, e nos outros todos que o precederam. 
Neste ano, poderemos não ver fogos de artifício, nem pular sete ondas ou mergulhar braviamente nas águas geladas; poderemos não abraçar a todos os amigos e familiares, tal como o desejaríamos... poderemos não fazer o habitual, o tradicional. E não nos lamentemos por isso. Este novo ano será realmente novo: reconstruamos tradições, criemos hábitos novos, renovemo-nos enquanto seres humanos, com esperança renovada.

«(…) Para ganhar um ano novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o ano novo
cochila e espera desde sempre.»
Receita de ano novo, Carlos Drummond de Andrade, extrato final 
 

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