Quando falamos em infarto e derrame, pensamos nos fatores de risco clássicos: pressão alta, colesterol elevado, diabetes, cigarro, obesidade, sedentarismo e histórico familiar. São fatores diretamente ligados à doença cardiovascular, e isso não é novidade para ninguém. Mas existem dimensões menos visíveis, difíceis de medir e quase sempre negligenciadas, que também ajudam a construir a doença cardiometabólica. Duas delas merecem atenção especial: o isolamento social e a solidão.
Embora costumem ser tratados como sinônimos, não são a mesma coisa. Isolamento social é uma condição objetiva. Diz respeito à pouca frequência de contato com outras pessoas, à escassez de vínculos, à redução das interações familiares e comunitárias. É algo que se observa de fora. Alguém que raramente encontra amigos, quase não conversa com a família e não participa de nada vive em maior isolamento.
Solidão é outra coisa. É uma experiência subjetiva. Não depende do número de pessoas em volta, mas da qualidade do vínculo que a pessoa sente que tem. Há quem more sozinho e não se sinta solitário, porque mantém relações que importam e se sente lembrado e amparado. E há quem viva numa casa cheia, cercado de pessoas, respondendo dezenas de mensagens por dia, e ainda assim carregue a sensação de não ser verdadeiramente visto nem compreendido.
A solidão e o isolamento agem de duas formas. A primeira é pelo comportamento, porque quem vive isolado costuma cuidar menos de si, se engaja menos nas metas de saúde, falta mais nas consultas e abandona o tratamento com mais facilidade. A segunda forma é que a sensação constante de estar só mantém o organismo num estado permanente de alerta, como se houvesse uma ameaça o tempo todo, e esse alerta faz a pressão subir e o coração bater mais acelerado, mesmo nos momentos de descanso. Com o tempo, essa tensão repetida cria um ambiente propício às doenças cardiovasculares. Por isso o cuidado permanece incompleto quando se ignora o contexto em que o paciente vive quando inicia uma tentativa de mudança de hábitos.
E mudança de comportamento raramente se sustenta só com informação. A pessoa pode saber o que precisa comer, entender por que tem que caminhar, ter a prescrição certa na mão, e ainda assim fracassar de novo e de novo se vive num ambiente emocionalmente pobre, sem apoio e sem nenhuma sensação de pertencer a algum lugar. Quem tem alguém esperando para caminhar junto, uma mesa com companhia, um grupo que cobra a ausência, sustenta o novo hábito por muito mais tempo. O vínculo segura a pessoa nos dias em que a vontade sozinha não basta.
Por isso uma boa avaliação precisa ampliar as perguntas. Além de saber se o paciente fuma, quanto pesa, como anda o colesterol e qual é a pressão, importa saber com quem ele conta, se tem apoio para atravessar uma fase difícil, se faz parte de alguma comunidade, se sente falta de companhia ou se apenas cumpre tarefas, cercado de gente e vazio de vínculo.