Você conhece o seu médico?

OPINIÃO - Osmar Marchioto Jr.

Data 28/01/2026
Horário 04:30

Durante muito tempo, a relação entre médico e paciente foi construída sobre uma base sólida de confiança. “Se o médico indicou, é porque sabe o que está fazendo.” Essa frase ainda é comum nos consultórios, mas, infelizmente, hoje ela precisa ser revista com atenção.
Me formei há 24 anos, em um tempo em que o número de faculdades de Medicina era menos da metade do que temos hoje. Não é uma crítica à expansão do ensino, que pode e deve democratizar o acesso à formação médica. O problema é que, com o crescimento desenfreado e sem critérios de qualidade, a triagem que antes ocorria na entrada, por meio de vestibulares exigentes, hoje acontece tardiamente, na aprovação para residência médica.
Na prática, muitos alunos não passam na residência. Pior: nem se interessam por essa etapa da formação médica. Ela é fundamental, pois garante o treinamento supervisionado e aprofundado em uma especialidade. Em vez disso, o que se observa é uma nova geração que, ao sair da faculdade, busca antes de tudo se posicionar nas redes sociais. O problema não está no Instagram em si. Hoje ele funciona quase como uma sala de espera. É lá que pacientes conhecem o médico, aprendem e se conectam. A questão começa quando isso se torna o foco principal, substituindo a formação técnica e ética. Assim surgem profissionais que investem mais em imagem do que em conhecimento.
Esse cenário abre espaço para distorções graves. Médicos que oferecem soros coloridos com promessas de bem-estar, implantes de chips hormonais, uso banalizado de medicamentos potentes. Tudo isso sob uma roupagem de modernidade e inovação. O problema é que, por trás da linguagem “técnica” e do cinto brega (termo cunhado pelo médico Silvio Póvoa para descrever médicos mais preocupados com aparência do que com ciência), não há conhecimento científico nem compromisso com a saúde do paciente.
Prescrever hormônios, manipular o metabolismo, intervir no eixo hormonal sem indicação clínica. Nada disso é conduta aceitável. Alterações hormonais podem, sim, estar presentes, mas muitas vezes são consequência de maus hábitos como sedentarismo, estresse ou obesidade. Nessas situações, tratar o sintoma com hormônio sem corrigir a causa não é solução. É atalho. E, quando esse atalho ignora diretrizes médicas e a segurança do paciente, ele se torna má prática.
Por isso, é necessário mudar a forma como escolhemos os profissionais que cuidam da nossa saúde. Antes de confiar, vale fazer algumas perguntas: possui título de especialista reconhecido por sociedade médica e registrado no CRM? Aquilo que ele divulga nas redes sociais tem respaldo científico?
É possível consultar tudo isso de forma gratuita no site dos Conselhos Regionais de Medicina (CRM). Ali você pode verificar se o médico realmente é especialista na área que diz atuar.
A medicina precisa recuperar seu compromisso com a formação sólida, com a ciência e com a ética. E isso começa também pelo olhar mais atento do paciente. Porque confiar no seu médico é importante, mas conhecer quem ele realmente é, é essencial.

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