Vidas descartáveis

OPINIÃO - Sandro Rogério dos Santos

Data 30/06/2019
Horário 04:30

A minh’alma está triste até à morte (cf. Mc 14,34). Comovo-me no íntimo diante da dor de tantas pessoas, minhas irmãs. Remove-me as entranhas ver a dor dos desvalidos quando tenho casa para morar, pessoas para amar e que me amam, apesar das minhas dificuldades. Ver a dor de quem perde e de quem se perde é demais. Ver famílias destroçadas por desamor, ambição, egoísmo... Ver crianças vagabundeando pelas estradas da vida, sem educação, sem casa, sem afeto, sem exemplos, sem futuro (porquê sem presente), sem esperança. Quase zumbis. Não, não falo de países em guerra nem de países recém-saídos de catástrofes naturais (como furacões ou tsunamis). Falo dessas que estão aqui perto, bem perto, ao meu lado, minhas vizinhas. Sim, sei, nem eu nem a maioria as enxerga. São parte da paisagem. Como outdoors, depois de um tempo, não são mais notados.

E tem ainda a outra ponta. Os idosos. Usados e abusados. Ignorados e humilhados. Esquecidos e deixados à própria sorte... minguam. Sofrem calados, pois ninguém os escuta. Seus cabelos brancos não sinalizam mais sabedoria ou equilíbrio de vida, apenas peso. Peso para a família preocupada consigo e sem tempo para quem não lhe dá, mas apenas exige. Leio a notícia no jornal e tenho que parar. Pauso a leitura, largo o jornal, angustio-me. O mal-cheiro chamou a atenção dos vizinhos no condomínio. Os bombeiros arrombaram a porta. Na cama jazia um corpo insepulto, decompondo-se. Aquele homem, tal qual Lázaro, cheio de doenças e dores no corpo e, creio, imensas dores na alma, morreu em casa, sem ninguém em derredor. Há os que cheios de limitações vão de leste a oeste, de norte a sul, a procura de adequado tratamento de saúde, de seus direitos para viver dignamente. Depois de tanto viver, de tanto fazer... sentem o peso da exclusão, do descaso (...).

Meu Deus! Conheceis meu coração, o meu desejo... A palavra sequer chegou a minha boca e já a conheceis. Tudo sabeis de mim. Muito mais que eu a mim mesmo, tudo sabeis. Queria viver na harmonia que vosso Reino inspira e ensina. Queria viver na paz que a vossa presença nos concede. Mas só tenho conseguido viver na instabilidade da paz fajuta das pessoas amedrontadas que buscam, buscam, buscam... a si mesmas em seus negócios e interesses mesquinhos/egoístas. A foto de pai e filha, mortos, abraçados, na tentativa de alcançar uma vida nova e melhor em outro país é di-la-ce-ran-te. De El Salvador, Oscar e Angie Valeria, pai e filha, morrem no Rio Grande, fronteira do México com os Estados Unidos. Quanta dor, Senhor! Minha humanidade está ali humilhada, aviltada... a dignidade profundamente destruída. E são tantos os que não vejo e sequer sei... Cientistas políticos, personalidades mil... todos teorizam a situação. Dramatizam o drama. Até quando, Senhor?

Silencio... Não por covardia ou medo. Em respeitosa reverência. Sinto-me com o coração apunhalado, a alma abatida. Sim, confio no Senhor. Espero n’Ele. Mas dói, tal como quando Jesus, aproximando-se da sua Hora, confessou: a minh’alma está triste até à morte (cf. Mc 14,34). Estou triste. A foto do evento de lá, me lembrou dos eventos sem fotos de cá. O Senhor é a nossa justiça. Ele enxugará dos olhos todas as lágrimas e nos dará novos céus e nova terra. Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!

 

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