“É um sonho realizado”, expõe médico

Para José Luis Boni Junior, “exercer o dom da medicina e ajudar quem precisa é uma grande realização”

PRUDENTE - SINOMAR CALMONA

Data 26/07/2020
Horário 04:05
Cedida - Boninho e anciã Pipina Waiana Apalai, de 87 anos, uma de suas pacientes; ela também teve Covid, com sintomas leves, e já está recuperada Foto: Cedida - Boninho e anciã Pipina Waiana Apalai, de 87 anos, uma de suas pacientes; ela também teve Covid, com sintomas leves, e já está recuperada

“É um sonho que está sendo realizado”, diz o médico prudentino José Luis Boni Junior, que aprecia os desafios e a dificuldade como fator de motivação para superar as fases mais importantes da vida. “Exercer o dom da medicina e ajudar quem precisa é uma grande realização”, define ele, que cuida de indígenas isolados, no Amapá.
Sobre o Programa Mais Médicos, ele aponta como suas principais conquistas o aumento da expectativa de vida dos índios, queda da mortalidade infantil e a erradicação de doenças como sarampo, catapora, poliomielite e difteria. Além disso, os casos de malária, que era a principal epidemia que assolava esses povos, são muito raros e, quando ocorrem, não evoluem para o óbito. A maioria dos povos dessa região superou as epidemias, e o risco de extinção, e agora luta contra a Covid-19. 
Todo cuidado é pouco, sem interferir na cultura dos povos, destaca José Luis. “Por vezes, é mais difícil conseguir essa articulação, especialmente em casos mais graves ou naqueles cuja etiologia, para os indígenas, envolve a dimensão espiritual e para a qual eles sabem que a biomedicina tem menor eficácia”, comenta. “Esses momentos são difíceis, mas sempre é possível o diálogo e o trabalho articulado. Além disso, a maior parte das mortes que ocorrem, especialmente nas crianças, é evitável. São situações nas quais uma boa atenção básica pode diminuir significativamente, reduzindo assim as chances de ocorrerem essas situações mais difíceis. Nas raras situações em que não há entendimento, prevalece a decisão da família, que pode seguir uma ou outra orientação, como é de direito”, pontua.

Sabedoria indígena

Como ex-aluno de Medicina, José Luis diz ter sentido falta de alguma disciplina na faculdade que tratasse de "humanização do atendimento" aos pacientes, coisa que, acredita, "só mesmo o dia a dia ensina". Afirma ter aprendido muito com a “sabedoria indígena”.
“O homem branco ainda precisa aprender tantas coisas com o povo indígena...”, destaca. O jovem médico diz que é muito bem tratado pelos indígenas. Ele mesmo prepara sua alimentação. Leva no voo a cada 20 dias tudo que precisa para preparar suas refeições, mas, mesmo assim, diariamente recebe carinhosamente “presentes dos índios”, que são frutas deliciosas da mata, e carnes silvestres. Boninho conta que já comeu carne de macaco, de anta, de jacaré, de porco-do-mato, tartaruga, tucano e  peixes de sabores inusitados.

O drama da Covid-19

A situação mais difícil do primeiro ano do médico na reserva Tumucumaque foi a chegada do vírus da Covid-19, trazida por índios que foram à cidade. Os 1.230 índios da aldeia acabaram infectados, mas morreu apenas uma índia de 67 anos. Ele tentou levá-la de avião para o hospital em Macapá, mas ela se recusou. Com exceção dessa índia, todos os outros se recuperaram. 
O próprio jovem médico foi contaminado. “Tive sintomas bem leves”, diz. Ele diz que cuidou dos índios seguindo à risca o protocolo do Ministério da Saúde: ministrou em seus pacientes os fármacos azitromicina, ivermectina e prednisona. Disse que eles já estavam habituados a ingerir a cloroquina devido a malária, que é uma enfermidade que continua afetando as populações indígenas. Já ministrava também a ivermectina, pois os índios sofrem muito com verminoses, bicho-de-pé e piolho. “Além disso, é da própria cultura deles tomar muito chá da quina, árvore que faz a cloroquina”, revela.

(Todas as fotos dessa reportagem foram feitas no início do ano, antes da pandemia)

Fotos: Cedidas

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