Carta a um amigo distante

OPINIÃO - Sandro Rogério dos Santos

Data 24/05/2020
Horário 09:03

Querido amigo, faz tempo que não nos falamos; estou incomodado. Não sei se foi você ou eu quem permitiu tal e tanto distanciamento. De todo modo, envio-lhe esta carta na ânsia de derrubar o muro da indiferença e de construir a ponte do encontro. Cada pessoa é o que é. Tantas vezes ouvimos essa afirmação. Sem muito filosofar, como discordar? Há circunstâncias, mas a essência permanece e os acordos de convivência não mudam o que se é, apenas acomodam visões e comportamentos. A tal política da boa vizinhança seria um exemplo disso.

Nós somos distintos. Nascemos em cidades próximas, mas diferentes. Nossos pais não são os mesmos e as nossas culturas divergem aqui e ali. As oportunidades também não foram as mesmas. Você nasceu mais abastado que eu. Aprendi a ser gente naquele contexto rural, cheio de beleza e de agruras. Convivi mais com adultos que com crianças. Claro que ser criança à época era outra experiência. Pude brincar na terra, fazer carrinhos de lata de óleo e goiabada, conviver com os animais...

As crianças de hoje têm outras ocupações e até mesmo instrutores para brincar. Lá em casa, também havia ausências. Quem sustenta a casa nem sempre está presente no seu dia a dia. E a sua experiência, amigo, era muito diferente da minha. Você tinha pais letrados e em sua casa, conviver com livros e conversas mais variegadas era o normal. A ponderação no falar e no comportar-se em presença de estranhos... tudo era diferente. Os meus modos eram mais por timidez e repressão que orientação. Não me ressinto disso.

O tempo passou, convivemos tantos anos na escola e ali nos descobrimos belos amigos. Verdadeiros companheiros – que compartilham do mesmo pão – vivemos muitas coisas boas, bonitas e algumas desafiadoras que, descobertas pelos pais, nos renderam puxões de orelhas. Fiquei pensando por onde encaminhar o assunto; vieram-me tantas coisas à memória que resolvi não prolongar a missiva. Nós nos distanciamos porque fomos envenenados. Semearam cizânia, discórdia entre nós. Sem notar, diária e lentamente, fomos tomados. Não éramos mais capazes de discordar de ideias sem nos ofendermos.

Parece que o seu Palmeiras e o meu Flamengo que sempre foram coisas naturais, já não o eram mais. Tornamo-nos antípodas. Cada palavra era prontamente retorquida por uma ofensa à honra alheia. Esfriamo-nos porque, gostando de cores diferentes, já não víamos valor no gosto do outro. Perdemo-nos no caminho porque alguém sem nos conhecer fez-nos estranhos. Será que não teríamos coragem e humildade para gostar um do outro apesar do futebol e da política e para narrar a nossa história com singeleza e verdade?

Seja bom o seu dia abençoada a sua vida. Pax!!!

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