Comida no prato

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 05/09/2021
Horário 05:15

Como você se comporta diante de um alimento que nunca experimentou? E se tal situação te colocasse diante de um imenso prato com coxas de rã? Passaria pela sua cabeça, erroneamente, de que aquelas rãs são as fêmeas dos sapos? Na minha vivência com familiares e amigos mineiros, talvez a primeira tática seria cheirar o prato para diminuir a resistência....quem sabe cutucar com o garfo para certificar-se de que nenhumazinha daquelas coxas estariam vivas e fugiriam saltitantes diante dos olhos espantados dos comensais. Mas eu estava numa mesa de restaurante com colegas de trabalho e, simplesmente, peguei a primeira coxa com as mãos e devorei-a deliciosamente. E assim foi com a segunda, com a terceira... 
Naquele momento eu fiquei pensando quantas oportunidades eu havia perdido na vida quando me furtei de experimentar pratos novos. Se você não se cuida, a alimentação passa a fazer parte das inúmeras atividades monótonas que se transformam a nossa vida cotidiana. Levanta, troca, corre, senta, come e dorme... Levanta, troca, corre, senta, come e dorme... ao infinito!
Na verdade, a arte de comer é componente importante da saúde. É o que nos ensina o premiado “Guia alimentar para a população brasileira”. As regras são muito simples. Em primeiro lugar, quanto mais alimentos in natura mais saudável. Mas  também é preciso respeitar nossas tradições, as histórias e costumes das famílias. E como é rica a culinária brasileira. Que maravilha as variações de baião-de-dois, a carne de sol com macaxeira, aquele gostoso cozido do sertão com pirão...E a galinha à cabidela, as patinhas de caranguejo e a saborosa moqueca de arraia?
A vida inteira o meu pai ensinou para os filhos esta abertura para o imenso repertório da cozinha brasileira. Numa espécie de chiste nordestino que sempre repetia numa roda de conversa, ele dizia: “O que eu não como é....do ar, urubu/ do chão, cururu/de quatro pés, o banco/ de orelha, a gamela/ de dente, o pente/ do cabelo, a escova....o resto eu como de tudo!” E assim, de chiste em chiste, dávamos boas risadas regadas pelos saborosos guisados que meu pai tão bem sabia cozinhar. 
Brincadeiras e boas histórias contadas na mesa à parte, expresso aqui o meu respeito pelas famílias que passam fome no Brasil. Quanta tristeza nas aglomerações em frente aos açougues para receber ossos de carne para matar a fome!  São cerca de 20 milhões de brasileiros famintos, segundo o recente estudo da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar. Que país é esse?
 

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