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Coringa

Um filme de Todd Phillips com Joaquin Phoenix, Robert de Niro e Zazie Beetz, “Coringa” chama atenção para o caos, provocado pela tão presente indiferença social. De alto nível, vem trazendo um despertar para uma reflexão a cerca do descaso com o lixo, corrupção, bullying e uma jurássica preocupação com a saúde mental, negligenciando a importância da prevenção primária.

Com raríssimas e contáveis exceções, os transtornos mentais não constituem uma ameaça ou uma condição perigosa em si. Mas quando deixamos de tratar, ignoramos seu papel na vida das pessoas, aquilo que não era tão grave em si torna-se uma força devastadora.

Síndrome pseudobulbar caracteriza-se por disartria, disfagia e disfonia, deficiência dos movimentos voluntários da língua e movimentos faciais, podendo desencadear choro e riso incontroláveis, como no caso de Coringa. A violência e o terror no comportamento humano tornam o transtorno mental de Coringa um pano de fundo no filme.

Narcisismo, indiferença, egoísmo, delinquência e o amor já tão esquecido são jogados aos becos de Gotham City. O filme inicia-se com a cidade coberta pelo seu lixo do lixo nosso de cada dia, em que os ratos são responsabilizados pelo seu fim. Delinquentes invadem os espaços privados, livres em expressões singulares de cada um, roubando a placa ilustrativa do ambiente de trabalho de Coringa. Naturalmente toda ação gera reação e Coringa reivindica protestando e é pisoteado, chutado, até ficar inconsciente, como no Brasil, quando incendeiam índios ou mendigos.

E assim como tudo tem prazo de validade, a corrupção subtrai a saúde mental do circuito do desenvolvimento humano e assim a psicose social instala-se. Sem acolhimento, continência ou assistência psicológica e psiquiátrica, Coringa extrapola as bordas e encontra na “geladeira” seu novo ninho. A cena mais emocionante é quando Coringa diz para seu amigo anão, que experienciou o afeto com ele e que foi o único que o tratou de forma decente em sua historia de vida. E é o único que ele poupa.

Coringa não fica louco porque tem um dano cerebral, mas por uma intrincada correlação entre maus encontros profissionais e amorosos, que parecem atuar como causa desencadeante, em progressão com a descoberta de sua própria origem. Seu desejo por aceitação e reconhecimento leva a uma reflexão sobre o mundo e seus preceitos morais. Suas experiências de despersonalização testemunham a persistência do narcisismo.

A falta de acolhimento, responsabilidade, comprometimento, continência e amor destroem gerações e gerações de bebês que estão vivendo a cesura do nascimento nesse exato momento. Estaríamos adentrando um universo estéril nas relações vinculares?

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