De onde você é?

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 05/07/2020
Horário 05:13

De onde você é? Esta é uma pergunta que sempre marcou a minha vida. Nasci em Uberlândia. Toda a minha vida escolar foi em São Paulo, onde cursei até a faculdade, comecei a trabalhar, casei, tive filhos. Fui trabalhar na Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Presidente Prudente em 1990, onde vivo há 30 anos. Assim, sou de Minas, me formei em São Paulo, vivo em Presidente Prudente. Tenho aqui uma boa oportunidade para refletir a respeito deste dilema pessoal. Para responder “de onde você é” percebi que é necessário refletir “quem você é”. Quem sou eu?

Como terceiro filho de uma família com três meninas e dois meninos, mudei para São Paulo em 1968. Meu pai era funcionário do Banespa, agência de Uberlândia. Na busca de melhores perspectivas profissionais, ele levou sua família para a capital paulista, onde foi subgerente, gerente, supervisor, gerente regional e diretor do banco. Para mim ele foi um exemplo de dedicação ao trabalho, espírito de grupo e ousadia.

Quando chegamos a São Paulo, eu tinha apenas 5 anos e a mudança representou, naquele momento, a distância da casa de minha avó materna e a perda da rua como espaço das brincadeiras infantis. São Paulo representava para mim trabalho e estudo. Os trajetos conhecidos eram restritos da casa para a escola e da escola para a casa. Eu não tinha mais todo o tempo do mundo para brincar, mas tinha que fazer lição de casa e ajudar nos afazeres domésticos.

São Paulo me convidava a crescer e a olhar para o mundo de modo mais crítico. Esses tempos de descobertas não ficaram somente na sala de aula. Fiz parte do Grêmio Estudantil e vivi intensamente passagens importantes da abertura política do Brasil. Lembro-me do dia da morte de Santo Dias, na greve de operários do ABC de 1979. Naquele dia, as aulas foram interrompidas e saímos em passeata até a Igreja da Consolação, em um grande cortejo fúnebre que silenciou a cidade de São Paulo. Depois dessa passeata, vieram outras manifestações, e muitas festas, shows no Teatro Lira Paulistana, peças de teatro popular (Teatro União e Olho Vivo) e de teatro experimental (Teatro Oficina). 

Enfim, foi em São Paulo que vivi intensamente a juventude numa época de muitas mudanças no país. Eu fazia parte da geração de 78, o que só descobri com o livro de Elio Gaspari: “A juventude da abertura política”. O reconhecimento da filiação das ideias e valores das quais eu compartilho me dá uma certeza de que, apesar do envelhecimento, essa juventude ainda pulsa dentro de mim. Sou um novo-velho!

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