Dia de Ano!

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 03/01/2026
Horário 05:03

Ouvir, mais uma vez, esse disparate, é algo ainda surpreendente, afinal, como é possível que ainda acreditem em Ano Novo? O pessimismo com a coisa pública, meu caro, é uma virtude rara nos dias atuais e pode revelar uma sapiência sem limites. Em primeiro lugar, considere o tempo natural e observe que, não existem, nele, nem começo e nem fim, de modo que estamos diante de uma absurda arbitrariedade ocidental. Contudo, como sabemos, diante da adoção de semelhante convenção, estamos todos sujeitos a essa bobagem, com a qual nos ocupamos, ano após ano. 
Pois bem, faço o alerta de que, é necessário reconhecer desde já que não, as coisas não vão melhorar, aqueles planos não vão sair do papel, suas promessas não serão cumpridas e mundo não ficará melhor, é possível, como demonstra a larga experiência, que tudo fique ainda pior. Ah, mas e a passagem do ano, a festa, as roupas brancas, o que fazer com elas? Para os amantes de rituais sem sentido, tais convenções podem se revelar distrações passageiras, como engodos capazes de fazer com que esqueçamos o fato de que tudo isso não passa de uma ficção mal elaborada. 
Só se pode lamentar o amanhã. Desculpem-me, mas alguém precisa dizer. Vejam, ontem mesmo, após as festas, como se sentira? O engodo passara, a realidade esteve aí, latente, à sua volta, à espreita, a dizer, “veja só, nada mudou, tudo continua do mesmo jeito”. Não existem grandes acontecimentos em um mundo em que a ordem liberal predomina e em que o capital está concentrado cada vez mais na mão de muito poucos. Essa é a realidade que Pickety vem mostrando, o Ano Novo é só deles. Para os demais, é apenas a renovação dos boletos o verdadeiro significado dessa data tão especial. 
Sim, talvez grandes coisas aconteçam, na sua vida e na do outro, é possível. Mas a esperança coletiva se perdeu há muito, já não existem projetos capazes de mobilizar as esperanças coletivas daquilo que chamamos humanidade. Nem mesmo a política, essa fabriqueta de projetos falsificados pela inteligência malfazeja, tem sido capaz de nos mobilizar a ponto de podermos sonhar. Pois, ao fim e ao cabo, o Ano Novo é um sonho, um belo sonho para o qual as pessoas se vestem de branco para que possam acreditar nele, pelo menos por algumas horas. 
Só nos resta o despertar desse idílico. Pois bem, acordem, o Ano Novo passou e o que temos diante de nós é apenas a Vida. Essa sim, humanamente possível, dentro de limites facilmente mensuráveis, é verdade, mas é apenas o que sobra diante da constatação de que não fomos enganados, ao menos dessa vez, por essas bobagens que nos ensinam a acreditar. O lamento, necessário, não pode ser para sempre, sobre pena de sermos tachados de fracotes. Desse modo, só nos resta a vida que precisa ser vivida, mais nada. 
Bem, e como ficamos? Feliz Ano Novo? Não sei, cada um que siga acreditando naquilo que bem entender, não é mesmo? O dia de ano, ainda bem, já passou dessa vez, ao menos, para nós. 
“Bem, e como ficamos? Feliz Ano Novo?”


 

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