Machadense lança livro-reportagem “Shokonsai: A vida celebrando a morte”

Helena Cararo narra histórias vividas por um povo que sofreu, mas venceu em uma terra desconhecida, que os acolheu como filhos

VARIEDADES - OSLAINE SILVA

Data 09/07/2017
Horário 13:47
Leandro Nigre, Jornalista, Helena Cararo afirma: “Estou feliz, por falar desse povo que tanto contribui com o nosso país!” Foto: Leandro Nigre, Jornalista, Helena Cararo afirma: “Estou feliz, por falar desse povo que tanto contribui com o nosso país!”

“Shokonsai: A vida celebrando a morte”! Este é o título que a jornalista machadense, Helena Cararo, escolheu para seu primeiro livro-reportagem que será lançado às 9h deste domingo com grande alegria na celebração oriental - que ocorre anualmente no segundo domingo do mês de julho, no Cemitério Japonês de Álvares Machado, o único da América Latina. Interessados poderão adquirir o livro, por R$ 20, no local. A autora diz que seu objetivo nesta obra é não deixar que o valor histórico do local (Cemitério Japonês) e também a celebração do Shokonsai sejam esquecidos. É guardar, em 66 páginas e oito capítulos, as relíquias, ou parte, das histórias vividas por um povo lutador que sofreu, mas venceu em uma terra desconhecida, que os acolheu como filhos. O Shokonsai segue até às 17h.

“O livro foi o meu TCC [Tese de Conclusão de Curso] da faculdade de Jornalismo. Comecei a escrevê-lo em julho de 2015 e terminei em novembro. Resolvi falar sobre o Shokonsai por ser uma tradição oriental muito bonita, passada de pais para filhos, netos... E dar a oportunidade, aos que não conhecem, de se apaixonar, assim como eu, pela história de vida dos japoneses que em 2018 comemoram 100 anos de chegada a Álvares Machado”, explica a jovem.

Para Helena, o evento representa a crença, a fé e a esperança de um povo que deixou seu país de origem, sua família, amigos, tudo para trás em busca de uma vida melhor. Conforme uma das citações que Helena faz em seu livro: “a história da imigração japonesa iniciou-se oficialmente no ano de 1908, quando chegaram ao Brasil os primeiros imigrantes que vinham em busca de acúmulo de riquezas, já que seu país passava por um período de transformações políticas e econômicas ocasionadas pela Reforma Meiji” (Okamoto, 2008, p.21)

“Trago um pouco da chegada dos primeiros imigrantes japoneses a Álvares Machado, a história do único brasileiro sepultado no cemitério japonês, as marcas da Segunda Guerra Mundial, a trajetória de alguns pioneiros que estão sepultados naquela cidade... Estou feliz, por falar desse povo que tanto contribui com o nosso país!”, exclama a autora.

 

O Milagre da Fé

A magia do Shokonsai é algo relatado por muitos. Helena cita no quinto capítulo do livro que muitos são os testemunhos de fé vivenciados por todo o mundo, em que cada pessoa tem uma história diferente para contar sobre esse sentimento. Acontecimentos inacreditáveis aos olhos humanos, mas que vistos como reflexo da fé são totalmente possíveis. Ela faz uma citação bíblica do livro de Marcos capítulo 11, versículo 23 (Mc 11,23) “porque em verdade vos afirmo que, se alguém disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se fará o que diz, assim será com ele”.

“Essa é a explicação mais plausível de todos que participam do Shokonsai, ao falarem sobre há 97 anos no dia da celebração às almas dos antepassados, nunca chover! E o momento único do acendimento das 784 velas [uma em cada túmulo] em que o vento cessa por completo e elas permanecem acesas até queimarem totalmente!”, exclama a escritora.

Segundo Helena, no Shokonsai não existe separação do novo e do velho. Os jovens celebram junto com os idosos os mesmos ideais. Independente de idade, os valores são os mesmos e todos têm orgulho de representar uma nação. Em grupo ou sozinhos, a união do povo japonês, seus valores e o respeito a família chamam a atenção.

 

Sobre a obra

O prefácio do livro-reportagem de Helena foi feito pelo também jornalista, Altino Correia que diz que a autora foi feliz na abordagem do tema que narra episódios memoráveis dos antigos imigrantes e seus descendentes. Segundo ele, ela relata detalhes de dificuldades que o povo japonês enfrentou na época em que chegaram a Álvares Machado, uma área desconhecida dos sertões sorocabanos.

Sobre o Shokonsai, Altino Correia expõe que nos últimos anos teve a oportunidade de acompanhar as celebrações e o que mais o impressionou foi a fé inquebrantável dos descendentes dos primeiros imigrantes, que têm ali no cemitério, seus entes queridos sepultados.

O posfácio foi escrito pela também jornalista, Carolina Mussolini. Ela diz que a obra mostra o quanto a união de um povo pode traçar uma história. O Shokonsai é uma celebração memorável que hoje se tornou uma festa não só da colônia japonesa, mas uma comemoração para toda a cultura regional. Carolina enaltece a forma sensível como Helena coloca os depoimentos dos personagens que “nos remete àquele tempo, como se estivéssemos lá, presenciando junto a memória das pessoas. E o livro-reportagem tem esse poder, pois a linguagem jornalística traz a realidade dos fatos com o toque singelo romancista”.

 

Helena Cararo

A jovem de 30 anos é formada em Jornalismo, pela Fapepe (Faculdade de Presidente Prudente) - Grupo Uniesp, mas trabalha como agente comunitária de saúde na ESF (Estratégia de Saúde da Família) de Panorama, Álvares Machado.

De acordo com Helena este é seu primeiro livro, mas já está com planos de escrever outros. Inclusive, um de poesia já está pronto, faltando apenas ser diagramado e aguarda publicação. Ela comenta que assim que lançar este do Shokonsai, que também será lançado no 8º Salão do Livro, quer começar a escrever outro, sobre os moradores de rua.

A autora menciona que tem até se envolvido mais em tudo que diz respeito a literatura e está, inclusive, participando do Sarau da APE (Associação Prudentina de Escritores).

“Com tantas lutas, sofrimentos e alegrias japoneses e descendentes que moram, hoje, em Álvares Machado, relembram com orgulho daqueles que um dia tiveram a coragem de se lançar ao sonho de uma vida melhor. Que enfrentaram o mar, doenças terríveis, a língua desconhecida, a comida e cultura totalmente diferentes de seus costumes. Venceram preconceitos, barreiras difíceis, muitos medos... Enfim, se sentem em casa. Esse livro é um presente para mim”, acentua a escritora agradecendo todo apoio que recebeu da Aceam (Associação Cultural Esportiva Agrícola Nipo-Brasileira de Álvares Machado).

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