Papai não gosta de viajar

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 25/06/2023
Horário 08:00

O professor de história, José de Arimatéia, acha injusto ele ter a fama na sua própria família de não gostar de viajar. Seu nome, de origem bíblica, foi escolhido pela sua mãe, Da. Carmélia. Ela se orgulhava que, segundo os Evangelhos canônicos, Arimatéia foi um homem rico, senador e membro do Sinédrio, o colégio dos mais altos magistrados do povo judeu e que formava a suprema magistratura judaica. Minha mãe tem mania de grandeza, dizia ele. 
Casado com Maria Esther e pai de três filhos: Renato, Tereza e Isabela. Maria Esther tinha um espírito de aventureira, uma Indiana Jones feminina. Adorava programar as viagens levando muito em consideração o custo. Planejou uma viagem para Paris na alta temporada. A família ficou toda animada, menos Arimatéia. Não é que não gosto de viajar, eu detesto a viagem, tentando excluir a fama de chato e de neurastênico diante da família. 
Arimatéia já ficou estressado só de pensar que iria enfrentar quase 12 horas de voo sem escalas na classe econômica. Mal sabia ele o programa de viagem que Esther tinha feito. Para ela, viajar 20 horas de ônibus era como estar num cruzeiro luxuoso percorrendo o Mar Mediterrâneo. Tudo era prazeroso para ela. Tudo era cultura. Chegaram ao Aeroporto de Guarulhos em São Paulo e seis horas antes do desejado embarque. Arimatéia já tinha tomado um frontal e disparou sua raivosa indignação: Puxa vida, pra que chegar seis horas antes do embarque? Curta o aeroporto José, disse ela. 
O aeroporto estava parecendo o metrô das 6 horas da tarde de São Paulo. Mas o pior ainda estava pra vir. Fizeram o check-in numa empresa chamada Air China. José toma outro frontal. Os custos sempre falam mais alto. Quando começou o embarque, José percebeu que só a sua família eram de brasileiros, só tinha chinês embarcando. Avião lotadíssimo, em torno de mais de 300 chineses com crianças chinesas. O piloto, co-piloto, comissárias e comissários todos chineses. José de Arimatéia senta no meio da poltrona ao lado de dois chineses de idade avançada. O avião da Air China levanta voo e Arimatéia olha para Esther com cara do Jack, o Estripador. Esther sorri como se dissesse para ele relaxar e curtir a viagem. 
Depois de algumas horas de voo, chega a hora de se alimentar. Esqueceu que estava na Air China? A gastronomia era chinesa, inclusive contendo pratos exóticos como espeto de inseto e sopa de ninho de andorinha. Até o vinho era chinês. Os dois velhos ao lado de José começam a degustar um gostoso espetinho de inseto e depois uma sopa de ninho de andorinha. José sente uma ânsia de vômito e vai correndo ao banheiro. Lá ele solta o maior grito do silêncio do mundo com palavrões que espantaram até o Pazuzu. O cheiro da comida era insuportável, o choro das crianças se tornou uma tortura e ele vê Esther feliz saboreando um porco agridoce. 
Foram quase 12 horas sem dormir, sem comer, sem beber e até pensou em cometer um massacre que poderia virar um filme chamado: Massacre no avião da Air China. Ficou três dias no quarto do Le Montclair Montmartre Hostel para se curar do estresse. Esther queria sentir como uma parisiense andando de metrô, já José queria andar de táxi: Eu não trabalhei durante 40 anos para ficar andando de metrô, ora bolas. 
Esther programou um programa de visitação de museus. Paris estava abarrotada de turistas que, em sua grande maioria, eram coreanos, chineses, japoneses. Cada grupo tinha mais de 400 orientais e um guia levantava uma bandeira e numa disciplina rígida caminhavam numa postura militar e José teve que entrar nessa parada. José queria dobrar para a esquerda, mas a multidão de orientais não deixava. José queria parar para apreciar e ver com calma um quadro de Hilaire Germain Edgar de Gas, conhecido como Edgar Degas, no Museu de Orsay, mas era empurrado pelo exército de turistas orientais. 
Seu desejo de conhecer o charmoso LeCastiglione, Brasserie animado e luxuoso, próxima à Place Vêndome, saboreando um delicioso Avocado toast, não aconteceu, acabou sendo obrigado, por causa do insuportável custo, a almoçar no MacDonald's parisiense. E daí? O Mac é tudo igual em qualquer parte desse mundo. Pra variar seus amados filhos reclamaram que ele era mal humorado e chato como companhia para viajar. Vejam vocês.

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