Vida interior

OPINIÃO - Sandro Rogério dos Santos

Data 31/05/2020
Horário 05:00

Para a atual época tecnológica, a Bíblia oferece com os seus exemplos rurais e agrícolas alguns questionamentos. Veja o exemplo do semeador “que saiu a semear” (cf. Mt 13,1-23). Grande é a paciência desse homem ao lançar a semente e esperá-la germinar. Preparou a terra. Escolheu a semente. Lançou a semente. Limpou a semeadura das pragas. Adubou. Regou. E ao brotar a planta, novamente, esperou o tempo dela se desenvolver. Afinal, ele intui que a sua pressa seja para matar a fome, seja para pagar as contas, não determina o ritmo interno da vida. A moderna agricultura abrevia tempos e otimiza processos funcionando como sinal de contra-o-tempo.

Até outro dia, as pessoas estavam correndo, esperando, transpirando, ocupadas, estressadas, angustiadas pelo dia de amanhã sem sequer saber se lhes seria dada a graça de vivê-lo. Hoje, a angústia mudou de foco, mas permanece. O semeador bíblico ensina a confiar na dinâmica própria e interna da criaturinha de Deus que traz em si a potencialidade de nova e multiplicadora vida. Das funções ingratas da vida, uma é a dos técnicos, especialmente, de futebol; têm que ganhar sempre! E amiúde pagarão o pato pela pressa da diretoria do clube ou pela quase sempre patológica cobrança da torcida. Aflição!

Santa Teresa d’Ávila, que com São João da Cruz refundou o Carmelo, era impetuosa, firme e determinada. Deixou significativa obra espiritual, da qual parece oportuno recordar o conhecido poema/oração/ensinamento: “Nada te perturbe, nada te amedronte. Tudo passa, a paciência tudo alcança. A quem tem Deus nada falta. Só Deus basta!” O apóstolo Paulo, escreveu o magnífico “hino à caridade” onde se lê: “o amor é paciente” (1 Cor 13,4). Sendo assim, a impaciência humana seria, então, uma falta de amor? As coisas do amor, excetuando o socorro do amado em perigo, aceitam pressa? Em derredor, é visto que tudo do amor é lento, pausado, como luz bruxuleante da vela a iluminar mansa e discretamente o ambiente.

Se a pessoa estiver conectada a si própria, em sintonia com a sua existência e o que dela decorre, faria cada coisa a seu tempo, no ritmo oportuno e necessário. A pressa impede o estabelecimento de vínculos, de ir à profundidade, deixando na superficialidade do rasinho. A meta de hoje é viver, se possível, melhor que até ontem. Para tal, importa perguntar-se se o ritmo vai determinado pelos acontecimentos ou pela pessoa que anseia profundidade, beleza, verdade, alegria e paz. A vida interior urge ser cultivada para que ela salve dos contratempos exteriores. Ciente de si e em paz, a travessia da existência ganha cor, sabor e sentido.

Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!

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