Quintal da América Latina

OPINIÃO - Helber Henrique Guedes

Data 10/01/2026
Horário 04:30

A Venezuela voltou ao tabuleiro geopolítico internacional, mas com resultado direto de uma escalada militar que rompe limites diplomáticos e reabre feridas históricas na América Latina. No início de janeiro de 2026, ataques militares dos Estados Unidos atingiram regiões estratégicas do país, incluindo Caracas, La Guaira e Miranda, deixando mortos, feridos e destruição de infraestrutura civil. Tratando de uma retórica política ou disputa narrativa? Durante anos, sanções econômicas e acusações judiciais foram usadas como instrumentos de pressão contra o Estado venezuelano. Agora, ironicamente, o próprio Departamento de Justiça dos Estados Unidos recuou de uma de suas principais teses: a existência do chamado “Cartel de los Soles”. A acusação, amplamente difundida para justificar bloqueios e isolamento internacional, foi abandonada por falta de provas. 
Esse movimento não ocorre no vazio. Ele se insere numa estratégia mais ampla de reposicionamento dos Estados Unidos na América Latina, impulsionada por setores que defendem abertamente o confronto. Nomes como Marco Rubio reaparecem como porta-vozes de uma política externa agressiva, especialmente contra países que insistem em autonomia política e controle de seus recursos naturais. A Venezuela, com uma das maiores reservas de petróleo do mundo, permanece como alvo preferencial.
O agravante é o contexto internacional. Diferente de outros momentos históricos, o mundo vive hoje múltiplas crises simultâneas — energéticas, climáticas e geopolíticas. A reação internacional aos ataques foi imediata. Países como China, Rússia, Turquia, México e Colômbia condenaram a ofensiva, enquanto setores da ONU (Organização das Nações Unidas) alertaram para o risco de desestabilização e para o enfraquecimento dos mecanismos multilaterais de prevenção de conflitos.
O Brasil, queira ou não, já está implicado nesse cenário. O governo brasileiro anunciou o envio de medicamentos e insumos de emergência após a destruição de estruturas de armazenamento na Venezuela, além de reafirmar, em fóruns internacionais, a rejeição à lógica de “protetorados” e intervenções externas. A posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido clara: defender a soberania dos povos e apostar na diplomacia como único caminho sustentável.
No plano interno venezuelano, apesar das dificuldades, não se confirmou o discurso do colapso institucional. O governo mantém funcionamento, há mobilização popular em defesa da soberania e as Forças Armadas declararam fidelidade à Constituição. A ideia de “vácuo de poder”, frequentemente usada para legitimar intervenções, simplesmente não se sustenta.
A história latino-americana é marcada por intervenções que deixaram rastros de instabilidade, autoritarismo e dependência. Repetir esse roteiro, em pleno século XXI, é ignorar lições duramente aprendidas. Uma escalada militar no norte da América do Sul não ficaria restrita às fronteiras da Venezuela e afetaria fluxos migratórios, economias regionais, segurança energética e a própria soberania dos países vizinhos.
Discutir a Venezuela hoje é discutir que tipo de América Latina queremos. Uma região tratada como zona de influência permanente ou um espaço de nações soberanas, capazes de resolver seus conflitos sem bombardeios e sanções seletivas. Defender a autodeterminação dos povos não é defender governos — é defender princípios básicos de convivência internacional.
Num mundo à beira de novos conflitos globais, insistir na guerra como solução é escolher o pior caminho. A Venezuela é o alerta. O silêncio, a omissão ou o alinhamento automático custam caro. E a conta, como sempre, recai sobre os povos.
 

Publicidade

Veja também