No meio do caminho

“No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas...”. O poema acima foi publicado em julho de 1928, no número três da Revista de Antropofagia. Um poema que causou alvoroço na época pela utilização da redundância e repetição. Por exemplo, a expressão “tinha uma pedra” é usada em sete dos dez versos do poema.

Sendo um dos nomes mais conhecidos do Modernismo brasileiro, Carlos Drummond de Andrade marcou a literatura brasileira por expressar de maneira inspiradora as profundas inquietações que atormentam o ser humano. As pedras mencionadas nesta poesia podem significar obstáculos, conflitos ou problemas que, em nossa trajetória ou experiências, encontramos na vida, expressada neste caso como um “caminho”.

Dizem, entre muitas teorias sobre a gênese do poema “No meio do caminho”, que remonta para a própria biografia de Carlos Drummond de Andrade. Ele casou-se em 26 de fevereiro de 1926, com a amada Julieta. Um ano depois, nasceu o primeiro filho do casal: Carlos Flavio. Por uma tragédia do destino, o menino sobreviveu apenas por meia hora. O poeta faleceu no Rio de Janeiro em 1987. Há quem diga que a sua morte tenha sido de alguma forma influenciada pelo falecimento da filha, que morreu apenas 12 dias antes do pai.

Carlos Drummond escreveu também “E agora, José?” que diz assim, “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? E agora, você? Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? E agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio...”.

A situação atual em que todos nós estamos evidenciando, com a explosão coronavírus, faz com que esses poemas venham à tona, estimulando reflexões para preservação da vida. Reinventando formas de privações à que estamos submetidos. Estamos enfrentando todo dia em nosso caminho “pedras” que precisamos resolver e rápido, em tomadas de decisões. E elas apareceram de forma abrupta.

Precisamos pensar sobre nossos pensamentos em tempo recorde. E muitas vezes nos perguntamos: “E agora, José?”. Somos todos os “Josés” de Carlos Drummond de Andrade. Muitas vezes, observando “Josés” morrendo sozinhos, sem ninguém da família por perto. São enterrados ainda mais solitários em decorrência da pandemia. Precisamos tirar a “pedra” da radicalização do caminho, pois emana muito ódio. Preservar a polarização de ideias positivas e transformadoras, podendo somar em direção à solidariedade, cumplicidade, sensibilidade, afeto e amor.

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