18 de maio de 2017 às 09h35 - Editorial
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Debate sobre abuso prepara a sociedade para apoiar vítimas

 

Há mais de 40 anos, o sequestro e morte de uma garotinha de 8 anos chamada Araceli, no Espírito Santo, marcou o país, fazendo com que essa data fosse lembrada sempre como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Seu pequeno e tenro corpo só foi encontrado dias depois, carbonizado, e os autores nunca foram punidos.

Apesar da feliz notícia, neste diário, de que os casos de abuso diminuíram quase 40% do ano passado para cá, é importante continuar lembrando sobre essa triste realidade, especialmente porque a subnotificação de casos ainda é um problema. Muitas crianças e adolescentes têm medo de denunciar seus agressores e frequentemente, ao relatarem os casos, são desacreditadas.

Existe uma comunidade que vem se fortalecendo na internet alegando a existência de “alienação parental” nas denúncias que envolvem abusos sexuais dos pais. Sugerem estatísticas altas de “mães mentirosas”, de 70% a 90%, sem nenhuma pesquisa séria que comprove isso.

Especialmente porque nem sempre é possível comprovar o abuso por inúmeros motivos, como o fato de só vir ao conhecimento público muito depois de ter ocorrido, impossibilitando a identificação de vestígios físicos, ou até pela impossibilidade da criança registrar ou fotografar a violência sofrida. Hoje, felizmente o município possui uma rede estruturada capaz de receber e apoiar a criança vítima de abuso, assim como seus pais, curando as feridas emocionais dessa família.

Ainda assim, de nada vale quando casos são “abafados” por medo, preconceito ou ignorância; quando os verdadeiros prejudicados são “revitimizados” pela sociedade, que busca encontrar neles alguma justificativa da violência sofrida – como se fosse culpa da vítima e quando a sociedade não está preparada para compreender e respeitar o trauma dessas pessoas.

Vítimas de abuso sofrem diferentes violências pelo resto da vida, quando denunciam o agressor. Seus relatos são desacreditados, piadas sobre a dor infringida os perseguem, assim como julgamentos, preconceitos e difamação.

Nesse cenário tenebroso, triste e completamente desprovido de empatia ou compaixão, o debate contra os casos de abuso e informações sobre as características recorrentes dessas situações é extremamente importante para trazer o tema à luz. Com isso, criamos uma sociedade preparada para receber as crianças, adolescentes e os adultos que sofreram abuso com amor e aceitação, e encorajamos as denuncias. Passou da hora de punir o agressor, e não a vítima.